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No que diz respeito à concordância nominal,
assinale, a seguir, a alternativa que apresenta um
problema de concordância.
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Sabendo que o período composto por
coordenação apresenta orações sintaticamente
independentes, assinale, a seguir, a alternativa
que apresenta uma oração coordenada sindética
adversativa.
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Quanto às funções sintáticas do pronome
relativo, analise as orações a seguir e classificações
correspondentes.
I- Comprei um livro que fez sucesso – O pronome relativo “que” exerce função sintática de sujeito;
II- Sou o homem que você vai amar - O pronome relativo “que” exerce função sintática de adjunto adnominal;
III- Assisti a um filme do qual você vai gostar - O pronome relativo “do qual” exerce função sintática de objeto indireto;
IV- Retornei a um lugar ao qual tinha aversão - O pronome relativo “ao qual” exerce função sintática de complemento nominal.
Após análise das afirmativas e das classificações correspondentes, conclui-se que as afirmativas corretas são:
I- Comprei um livro que fez sucesso – O pronome relativo “que” exerce função sintática de sujeito;
II- Sou o homem que você vai amar - O pronome relativo “que” exerce função sintática de adjunto adnominal;
III- Assisti a um filme do qual você vai gostar - O pronome relativo “do qual” exerce função sintática de objeto indireto;
IV- Retornei a um lugar ao qual tinha aversão - O pronome relativo “ao qual” exerce função sintática de complemento nominal.
Após análise das afirmativas e das classificações correspondentes, conclui-se que as afirmativas corretas são:
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Assinale, a seguir, a alternativa que apresenta
um hiato, um ditongo crescente e um tritongo,
nesta ordem.
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Leia o texto a seguir e responda a questão.
A última crônica
Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da
Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar
inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta
busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de
cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida
diária algo de seu disperso conteúdo humano,
fruto da convivência, que a faz mais digna de ser
vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta
perseguição do acidental, quer num flagrante de
esquina, quer nas palavras de uma criança ou num
acidente doméstico, torno-me simples espectador e
perco a noção do essencial. Sem mais nada para
contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto
o verso do poeta se repete na lembrança: "assim
eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e
estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora
de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma
crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos
acaba de sentar-se, numa das últimas mesas
de mármore ao longo da parede de espelhos. A
compostura da humildade, na contenção de gestos
e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de
uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça,
toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou
também à mesa: mal ousa balançar as perninhas
curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao
redor. Três seres esquivos que compõem em torno
à mesa a instituição tradicional da família, célula da
sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo
mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o
dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o
garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta
no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe
limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
como se aguardasse a aprovação do garçom. Este
ouve, concentrado, o pedido do homem e depois
se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando
para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de
sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a
ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha
a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho
-- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma
pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha
a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom
deixou à sua frente. Por que não começa a comer?
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno
à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa
de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O
pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A
filha aguarda também, atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que
a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E
enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo
e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a
menininha repousa o queixo no mármore e sopra com
força, apagando as chamas. Imediatamente põese a bater palmas, muito compenetrada, cantando
num balbucio, a que os pais se juntam, discretos:
"parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a
mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A
negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos
sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando
para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo
crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O
pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se
convencer intimamente do sucesso da celebração.
Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se
encontram, ele se perturba, constrangido — vacila,
ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o
olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que
fosse pura como esse sorriso.
Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem",
Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.
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A última crônica
Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da
Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar
inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta
busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de
cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida
diária algo de seu disperso conteúdo humano,
fruto da convivência, que a faz mais digna de ser
vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta
perseguição do acidental, quer num flagrante de
esquina, quer nas palavras de uma criança ou num
acidente doméstico, torno-me simples espectador e
perco a noção do essencial. Sem mais nada para
contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto
o verso do poeta se repete na lembrança: "assim
eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e
estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora
de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma
crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos
acaba de sentar-se, numa das últimas mesas
de mármore ao longo da parede de espelhos. A
compostura da humildade, na contenção de gestos
e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de
uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça,
toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou
também à mesa: mal ousa balançar as perninhas
curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao
redor. Três seres esquivos que compõem em torno
à mesa a instituição tradicional da família, célula da
sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo
mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o
dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o
garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta
no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe
limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
como se aguardasse a aprovação do garçom. Este
ouve, concentrado, o pedido do homem e depois
se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando
para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de
sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a
ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha
a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho
-- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma
pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha
a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom
deixou à sua frente. Por que não começa a comer?
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno
à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa
de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O
pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A
filha aguarda também, atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que
a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E
enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo
e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a
menininha repousa o queixo no mármore e sopra com
força, apagando as chamas. Imediatamente põese a bater palmas, muito compenetrada, cantando
num balbucio, a que os pais se juntam, discretos:
"parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a
mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A
negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos
sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando
para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo
crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O
pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se
convencer intimamente do sucesso da celebração.
Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se
encontram, ele se perturba, constrangido — vacila,
ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o
olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que
fosse pura como esse sorriso.
Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem",
Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.
I- A palavra “discretamente” foi formada pelo processo de derivação parassintética;
II- No que diz respeito à classe de palavras, podese dizer que “discretamente”, nesse contexto, trata-se de um advérbio;
III- As vírgulas presentes no período em destaque foram utilizadas para intercalar as orações que estão entre o sujeito “o pai” e o verbo “aborda”;
IV- A oração “que discretamente retirou do bolso” classifica-se como oração subordinada adjetiva explicativa.
Após análise das afirmativas, conclui-se que a sequência correta é:
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Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da
Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar
inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta
busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de
cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida
diária algo de seu disperso conteúdo humano,
fruto da convivência, que a faz mais digna de ser
vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta
perseguição do acidental, quer num flagrante de
esquina, quer nas palavras de uma criança ou num
acidente doméstico, torno-me simples espectador e
perco a noção do essencial. Sem mais nada para
contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto
o verso do poeta se repete na lembrança: "assim
eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e
estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora
de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma
crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos
acaba de sentar-se, numa das últimas mesas
de mármore ao longo da parede de espelhos. A
compostura da humildade, na contenção de gestos
e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de
uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça,
toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou
também à mesa: mal ousa balançar as perninhas
curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao
redor. Três seres esquivos que compõem em torno
à mesa a instituição tradicional da família, célula da
sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo
mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o
dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o
garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta
no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe
limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
como se aguardasse a aprovação do garçom. Este
ouve, concentrado, o pedido do homem e depois
se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando
para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de
sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a
ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha
a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho
-- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma
pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha
a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom
deixou à sua frente. Por que não começa a comer?
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno
à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa
de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O
pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A
filha aguarda também, atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que
a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E
enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo
e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a
menininha repousa o queixo no mármore e sopra com
força, apagando as chamas. Imediatamente põese a bater palmas, muito compenetrada, cantando
num balbucio, a que os pais se juntam, discretos:
"parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a
mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A
negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos
sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando
para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo
crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O
pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se
convencer intimamente do sucesso da celebração.
Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se
encontram, ele se perturba, constrangido — vacila,
ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o
olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que
fosse pura como esse sorriso.
Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem",
Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.
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A última crônica
Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da
Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar
inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta
busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de
cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida
diária algo de seu disperso conteúdo humano,
fruto da convivência, que a faz mais digna de ser
vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta
perseguição do acidental, quer num flagrante de
esquina, quer nas palavras de uma criança ou num
acidente doméstico, torno-me simples espectador e
perco a noção do essencial. Sem mais nada para
contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto
o verso do poeta se repete na lembrança: "assim
eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e
estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora
de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma
crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos
acaba de sentar-se, numa das últimas mesas
de mármore ao longo da parede de espelhos. A
compostura da humildade, na contenção de gestos
e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de
uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça,
toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou
também à mesa: mal ousa balançar as perninhas
curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao
redor. Três seres esquivos que compõem em torno
à mesa a instituição tradicional da família, célula da
sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo
mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o
dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o
garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta
no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe
limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
como se aguardasse a aprovação do garçom. Este
ouve, concentrado, o pedido do homem e depois
se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando
para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de
sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a
ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha
a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho
-- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma
pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha
a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom
deixou à sua frente. Por que não começa a comer?
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno
à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa
de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O
pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A
filha aguarda também, atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que
a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E
enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo
e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a
menininha repousa o queixo no mármore e sopra com
força, apagando as chamas. Imediatamente põese a bater palmas, muito compenetrada, cantando
num balbucio, a que os pais se juntam, discretos:
"parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a
mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A
negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos
sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando
para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo
crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O
pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se
convencer intimamente do sucesso da celebração.
Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se
encontram, ele se perturba, constrangido — vacila,
ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o
olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que
fosse pura como esse sorriso.
Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem",
Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.
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No que concerne a Política Nacional de Atenção
Básica, Portaria 2.436/2017 na qual aprova e
estabelece a revisão de diretrizes para a organização
da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de
Saúde (SUS) marque a alternativa incorreta:
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Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar
inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta
busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de
cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida
diária algo de seu disperso conteúdo humano,
fruto da convivência, que a faz mais digna de ser
vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta
perseguição do acidental, quer num flagrante de
esquina, quer nas palavras de uma criança ou num
acidente doméstico, torno-me simples espectador e
perco a noção do essencial. Sem mais nada para
contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto
o verso do poeta se repete na lembrança: "assim
eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e
estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora
de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma
crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos
acaba de sentar-se, numa das últimas mesas
de mármore ao longo da parede de espelhos. A
compostura da humildade, na contenção de gestos
e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de
uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça,
toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou
também à mesa: mal ousa balançar as perninhas
curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao
redor. Três seres esquivos que compõem em torno
à mesa a instituição tradicional da família, célula da
sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo
mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o
dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o
garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta
no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe
limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
como se aguardasse a aprovação do garçom. Este
ouve, concentrado, o pedido do homem e depois
se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando
para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de
sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a
ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha
a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho
-- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma
pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha
a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom
deixou à sua frente. Por que não começa a comer?
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno
à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa
de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O
pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A
filha aguarda também, atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que
a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E
enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo
e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a
menininha repousa o queixo no mármore e sopra com
força, apagando as chamas. Imediatamente põese a bater palmas, muito compenetrada, cantando
num balbucio, a que os pais se juntam, discretos:
"parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a
mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A
negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos
sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando
para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo
crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O
pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se
convencer intimamente do sucesso da celebração.
Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se
encontram, ele se perturba, constrangido — vacila,
ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o
olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que
fosse pura como esse sorriso.
Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem",
Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.
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