Texto 1
A nuvem
– Fico admirado como é que você, morando nesta
cidade, consegue escrever uma semana inteira sem
reclamar, sem protestar, sem espinafrar! E meu amigo
falou da água, telefone, Light em geral, carne, batata,
transporte, custo de vida, buracos na rua, etc. etc. etc.
Meu amigo está, como dizem as pessoas exageradas,
grávido de razões. Mas que posso fazer? Até que
tenho reclamado muito isto e aquilo. Mas se eu for
ficar rezingando todo dia, estou roubado: quem é que
vai aguentar me ler? Acho que o leitor gosta de ver
suas queixas no jornal, mas em termos.
Além disso, a verdade não está apenas nos buracos
das ruas e outras mazelas. Não é verdade que as
amendoeiras neste inverno deram um show luxuoso
de folhas vermelhas voando no ar? E ficaria demasiado feio eu confessar que há uma jovem gostando
de mim? Ah, bem sei que esses encantamentos de
moça por um senhor maduro duram pouco. São caprichos de certa fase. Mas que importa? Esse carinho
me faz bem; eu o recebo terna e gravemente; sem
melancolia, porque sem ilusão. Ele se irá como veio,
leve nuvem solta na brisa, que se tinge um instante de
púrpura sobre as cinzas de meu crepúsculo.
E olhem só que tipo de frase estou escrevendo! Tome
tenência, velho Braga. Deixe a nuvem, olhe para o
chão – e seus tradicionais buracos.
BRAGA, Rubem. Ai de ti, Copacabana. Disponível em: < https://
armazemdetexto.blogspot.com/search/label/RUBEM%20
BRAGA?update