Fim do mundo
Não se sabe ainda se o mundo acabou
realmente no sábado, como fora anunciado. Pode
ser que sim, e não seria a primeira vez que isso
acontece. A falta de sinais estrondosos e visíveis
não é prova bastante da continuação. Muitas
vezes o mundo acaba em silêncio, ou fazendo um
barulho leve de folha. Tempos depois é que se
percebe, mas já estamos vivendo em outro
mundo, com sua estrutura e seus regulamentos
próprios, e ninguém leva lenço aos olhos pelo
falecido.
O mundo primitivo dos répteis, o mundo
neolítico, o egípcio, o persa, o grego, o romano,
o maia... todos esses acabaram, e muitos outros
ainda. A história é cemitério de mundos,
notando-se que uns tantos acabaram de morte tão
acabada que nem sequer figuram lá com uma
tabuleta; não se sabe que fim levaram as cinzas.
(...)
Nem todas as concepções de fim material
do mundo terão a magnificência desta que liga a
desintegração da Terra ao choque com a
cabeleira luminosa de um astro. Concepção
antiquada, concordo. Admitia a liquidação do
nosso planeta como uma tragédia cósmica que o
homem não tinha poder de evitar. Hoje, o
excitante é imaginar a possibilidade dessa
destruição por obra e graça do homem. A Terra e
os cometas devem ter medo de nós.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Fim do mundo. Crônica brasileira. Disponível em
<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17491/ fim-do-mundo>.
“Não se sabe ainda se o mundo acabou realmente no sábado, como fora anunciado. Pode ser que sim, e não seria a primeira vez que isso acontece.”
A expressão destacada no trecho acima deixa clara a ideia de que o fim do mundo: