TEXTO:
Jorge Amado e o tribunal das redes
Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do
romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,
33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.
“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela
levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver
se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer
lhe conhecer”.
Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no
meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado
estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem
conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava
afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia
há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.
Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o
assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido
algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,
graças a Deus, o assinou e me deu.
Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;
estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me
incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E
escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação
como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,
com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de
um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal
com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo
de maneira muito especial.
Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.
Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake
news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia
barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que
a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes
insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.
Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um
julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais
motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal
pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2
à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele
enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado
com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas
comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi
grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge
Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo
sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa
celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra
dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.
Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.
Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o
tribunal das redes.
VIEIRA Jr., Itamar.
Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).
Em “Recuperaram uma notícia de jornal (...), dizendo que Jorge Amado havia barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa.” (l. 28-30), a locução verbal assinalada pode ser substituída, sem alteração de seu significado no trecho, por: