TEXTO IV
O trecho a seguir é um fragmento extraído do artigo “O Alienista: loucura, poder e ciência.”
O corpo da disciplina
A loucura do Alienista não é uma tragédia somente
pessoal. Ele assumiu em seu corpo, coerentemente, todos
os projetos científicos da época - e isso o levou ao
desastre. Mas uma coisa é certa: eram projetos científicos.
5 Enlouquecidos, talvez, mas colados ao discurso
positivista.
Tratava-se de “estudar profundamente a loucura, os
seus diversos graus, classificar-lhes os casos, descobrir,
enfim, a causa do fenômeno e o remédio universal”
10 (p. 256). Projeto partilhado por inúmeros colegas de
Bacamarte, tanto de ontem quanto de hoje. Projeto
elevado, acima de interesses pessoais ou busca de
honrarias: “trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma
experiência científica” (p. 260). Experiência assumida com
15 todos os cuidados e escrúpulos exigidos pela ciência:
Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar
desde já a minha idéia (sic); nem a ciência é outra
coisa, Sr. Soares - (diz ele ao boticário Crispim) - senão
20 uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma
experiência, mas uma experiência que vai mudar a
face da terra. A loucura, objeto de meus estudos, era
até agora uma ilha perdida no oceano da razão;
começo a suspeitar que é um continente (p. 260)
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A ciência, adverte o texto, não está livre de pretensões
enlouquecidas, que não são exclusivas de Simão
Bacamarte, aliás. Não se trata apenas de investigar (um
investigar sem pretensão e metafísico), mas de
30 conquistar. A ilha perseguida se revela um continente - o
universo acanhado de Itaguaí se amplia, universaliza-se
ao toque mágico da abstração científica. E, metáfora
geográfica, diante deste continente, o Alienista se coloca
como um cavaleiro andante.
35 Mesmo que se queira evitar, em vários momentos nos
invade a mente a imagem do Quixote. E nem lhe falta um
Sancho Pança na figura servil, medrosa e chã de Crispim
Soares, que seria a imagem vivaz do vulgo. Em seus
combates, Bacamarte cruza lanças não contra moinhos de
40 vento ou cavaleiros andantes, mas contra teorias e idéias
(sic) vulgares - as quais, submetidas a seu espírito
privilegiado, acabam se revelando igualmente
fantasmagóricas. Desastrado e delirante como Quixote, sua
empreitada também terminará em morte. Mal erguia seu
45 próprio mito, a ciência já encontrava um quixote-alienista
para lhe apontar seu fim (enquanto meta e enquanto morte)
- mas, no caso, os quixotes eram multidão triunfante, não só
na ciência, mas também na política e nas artes. Enquanto o
século delirava, Machado limitava-se a compor seu texto.
50 E, nele, o projeto do Alienista ganha corpo:
Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu
fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é
a razão; por outros termos, demarquemos
55 definitivamente os limites da razão e da loucura. A
razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades;
fora daí, insânia e só insânia (p. 261).
Pe. Lopes, a quem o Alienista confia a nova teoria, vê nela
60 um absurdo, ou, pelo menos, uma tarefa colossal. Mas nada
pode resistir ao triunfo da ciência. Para o esperto e assustado
padre, a tarefa do Alienista tem dupla face: é absurda, pois
assim a vê do ângulo da teologia cristã, certamente alarmado
com o pecado que é a pretensão de se desvendar a última
65 razão dos mistérios da mente humana: soberba e sacrilégio,
desejo satânico de ser Deus [...].
(Adaptado de: GOMES, Roberto. O Alienista: loucura, poder e ciência. Tempo social. Rev, Sociol. USP. São Paulo Paulo,v. 5 (1-2): 156-157, 1993)
Considerando que o vocábulo se pode aparecer em uma estrutura frasal e assume diferentes classificações, assinale a alternativa correta.