Memórias editadas
Psicólogos alertam: a mania de tirar fotos o tempo todo pode estar
destruindo nossas lembranças e nos tornando pessoas mais superficiais.
O Instagram recebe 95 milhões de fotos por dia. São 1100 novas imagens no sistema a cada segundo. Isso sem falar nos outros bilhões de cliques armazenados na memória dos celulares e que nunca verão a luz do dia.
Nunca se fotografou tanto, claro. As câmeras digitais acabaram com a limitação de poses. O celular realizou uma utopia: colocou uma câmera digital em cada bolso - ou quase isso. E tome foto. De tudo. De todos. Só tem um problema: esse hábito pode estar acabando com nossas vidas - pelo menos com a forma como nos lembramos das nossas vidas.
O celular é um HD externo do nosso cérebro. Uma extensão da nossa memória. E isso começou bem antes do celular. Desde sempre, a humanidade buscou formas de expandir a capacidade de guardar informação que trazemos de fábrica. Das pinturas rupestres aos livros e quadros, quase tudo o que entendemos como “cultura” vem do impulso de tornar a vida um fenômeno menos furtivo.
Quando você vive com uma câmera fotográfica de capacidade virtualmente infinita no bolso, a tendência é que você se preocupe mais em registrar momentos do que em prestar atenção neles. Aí complica.
“Prestar atenção é fundamental para codificar informações na memória”, diz a italiana Giuliana Mazzoni, professora de psicologia da Universidade de Hull, no Reino Unido, e especialista no assunto.
Giuliana é um dos vários psicólogos acadêmicos que amaldiçoam o hábito de tirar fotos – ao menos quando ele se torna uma compulsão. “Se você adquire esse hábito, seu cérebro pode começar a processar informações de forma mais superficial.” Resultado: memórias mais fracas, mais difíceis de acessar.
BATTAGLIA, Rafael. Memórias editadas. Superinteressante. Ed. 400, mar. 2019, p. 54-57. (Fragmento adaptado)
Em: “O celular realizou uma utopia: colocou uma câmera digital em cada bolso - ou quase isso.”, o emprego dos dois pontos no trecho objetiva, EXCETO: