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3232255 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: FDQ
Orgão: UFERSA
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Para todes: a reinvenção da língua portuguesa sem masculino ou feminino



Por Luiza Lunardi

Publicada em 29 de janeiro de 2021


A história da linguagem acompanha a história humana no planeta. Desde que descobriu a comunicação por meio da voz e de símbolos, o ser humano passou a inventar, reinventar e renovar línguas a todo o momento, em uma atualização constante e ininterrupta. Apesar de ser um processo gradual e orgânico, uma inovação na língua portuguesa tem gerado controvérsias no mundo acadêmico e em debates na internet: o “gênero neutro”, proposta que prega a adição de sentido não-binário a palavras que sejam marcadas pela dicotomia masculino/feminino, substituindo os artigos A e O, que definem gênero na nossa língua. A mudança é defendida por grupos identitários, principalmente em prol da visibilidade de pessoas trans não-binárias, com o objetivo de garantir maior inclusão.

Apesar de a polêmica existir na língua portuguesa, a discussão não é exclusiva de terras tupiniquins. Estudos realizados pela Universidade de Washington, nos Estados Unidos, com 3,9 mil falantes suecos indicam que a linguagem neutra de fato diminui preconceitos. Enquanto isso, na Espanha, a Real Academia do país se envolveu em polêmica em outubro de 2020, ao incluir o pronome neutro elle em seu observatório de palavras online e retirá-lo do ar três dias depois, após “confusão” entre internautas. A companhia aérea Japan Airlines (JAL) anunciou que irá abolir o termo “senhoras e senhores” do chamamento de seus voos. Outras empresas do setor aéreo como Air Canada e EasyJet também mudaram para saudações de gênero neutro desde 2019.

Aqui no Brasil, o início do debate trazia elementos como X e o @ à tona, que seriam usados para substituir o A e O definidores de gênero das palavras. Entretanto, segundo aponta a ativista Rafaela “Rafuska” Queiroz, do Movimento Estamos Todes em Ação (META Brasil), os próprios grupos defensores da linguagem neutra colocaram em questão a utilização desses termos gráficos, por provocarem a exclusão de pessoas com deficiência. “O problema foi principalmente apontado por pessoas cegas ou com baixa visão, que fazem uso de leitores de tela em aparelhos eletrônicos. Aplicativos com essa finalidade dão erro ou leem a palavra de forma errada quando marcamos o gênero neutro a partir do @ ou do X”, descreve Rafuska.

Para contornar as características excludentes, novas formas de uso de gênero neutro para o português foram criadas. O “Manual para o Uso da Linguagem Neutra em Língua Portuguesa”, elaborado por Gioni Caê, estudante de Letras Português-Inglês da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), identifica quatro sistemas usados na linguagem neutra: Elu, Ile, Ilu e El. “Decidi juntar tudo o que tinha encontrado em um único local, para poder estudar e me adaptar. Daí surgiu o manual”, narra Gioni, que se identifica como pessoa não-binária e atende por pronomes masculinos.

O uso do gênero neutro vem se tornando uma realidade entre pessoas não-binárias. É o caso de Mar Facciolla, de 21 anos, estudante de Psicologia de São Caetano do Sul, São Paulo, que se reconhece enquanto transgênero não-binárie, e pede que seja referide a partir do sistema Elu. Para Mar, a consequência mais importante da adoção de linguagem neutra na língua portuguesa é a humanização de pessoas transvestigêneras (termo que une as palavras “travesti, transexual e transgênero”) não-binárias e pessoas intersexo na sociedade. “No dia a dia, nossa existência não está incluída na sociedade. Essa dicotomia que atravessa nossos corpos faz com que sejamos excluídes”, afirma.

Para e estudante de Psicologia, o pronome é uma demarcação social. Mar explica que, ao chamar alguém por pronomes femininos ou masculinos, coloca-se o indivíduo em um espectro de feminilidade ou masculinidade. “Tudo na sociedade que está relacionado a ‘ela’ está intimamente associado ao feminino. Igualmente, tudo o que é ‘ele’ está relacionado à masculinidade. O pronome é uma expressão de gênero, então quando utilizam pronomes femininos ou masculinos para se referirem a mim, estão me colocando em um lugar que não é meu”, explica Mar.

Apesar de iniciativas como o Manual, a linguagem neutra segue sem reconhecimento acadêmico na língua portuguesa. Para o professor André Conforte, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a dificuldade de inserção do “gênero” está na quebra do fluxo contínuo da língua. “Não conheço um processo de mudança linguística que não tenha se dado de baixo para cima. Mudanças linguísticas impostas geralmente não acontecem e, quando acontecem, sofrem as resistências normais da língua. Por exemplo, quando o império romano impôs a sua língua (o latim) sobre a Península Ibérica, não foi a língua imposta que se estabeleceu por lá com o tempo”, exemplifica.

A discussão sobre o assunto deve seguir na agenda dos brasileiros nos próximos anos. Para Gioni Caê, só o tempo dirá se a linguagem neutra vai ganhar visibilidade acadêmica e a popularização dos termos na sociedade em geral. “Não dá para colocar nada à força na vida de ninguém. É sempre importante termos respeito com todas as pessoas, e eu vejo a linguagem neutra assim. Como uma maneira de respeitar ês próximes”, afirma.



LUNARDI, Luiza. Para todes: a reinvenção da língua portuguesa sem masculino ou feminino. 29 jan. 2021. Portal Colabora. Disponível em: https://projetocolabora.com.br/ods5/para-todes-a-reinvencao-da-linguaportuguesa-sem-masculino-ou-feminino/. Acesso em: 24 ago. 2021. Adaptado para fins didáticos.

Na frase: “[...] o início do debate trazia elementos como X e o @ à tona, que seriam usados para substituir o A e O definidores de gênero das palavras”, a forma verbal flexionada “seriam” concorda com:

 

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