Magna Concursos
2462432 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: UFMT
Orgão: UNIR

O preconceito nosso de cada dia

Preconceito, nunca. Temos apenas opiniões bem definidas sobre as coisas. Preconceito é o outro que tem...

Mas, por falar nisso, já observou o leitor como temos o fácil hábito de generalizar (e prova disso é a generalização acima) sobre tudo e todos? Falamos sobre “as mulheres” a partir de experiências pessoais; conhecemos “políticos” após acompanhar a carreira de dois ou três; [...] discorremos sobre homossexuais (bando de sem-vergonhas), muçulmanos (gentinha atrasada), sogras (feliz foi Adão que não tinha sogra nem caminhão), advogados (todos ladrões), professores (pobres coitados), palmeirense (palmeirense é aquele que não tem classe para ser são-paulino nem coragem para ser corintiano) [...] enfim, sobre tudo. Mas discorremos de maneira especial sobre raças e nacionalidades e, por extensão, sobre atributos inerentes a pessoas nascidas em determinados Estados.

Afinal, todos sabemos (sabemos?) que franceses não tomam banho; os mexicanos são preguiçosos; os suíços, pontuais; os italianos, ruidosos; os judeus, argentários; os árabes, desonestos; os japoneses, trabalhadores e por aí afora.[...] Sabemos ainda que o negro não tem o mesmo potencial que o branco, a não ser em algumas atividades bem definidas, como o esporte, a música, a dança e algumas outras que exigem mais do corpo e menos da inteligência. Quando nos deparamos com algumas exceções, admitimos que alguém possa ser limpo, apesar de ser francês; trabalhador, apesar de mexicano; discreto, apesar de italiano; honesto, apesar de árabe; desprendido do dinheiro, apesar de judeu; preguiçoso, apesar de japonês, e também por aí afora. Mas admitimos com relutância e em caráter totalmente excepcional.

O mecanismo funciona mais ou menos assim: estabelecemos uma expectativa de comportamento coletivo (nacional, regional, racional), mesmo sem conhecermos, pessoalmente, muitos ou mesmo nenhum membro do grupo sobre o qual pontificamos. [...] Para comprovar que os italianos são ruidosos achamos o bastante frequentar uma cantina do Bexiga. Falamos sobre a inferioridade do negro a partir da observação empírica de sua condição socioeconômica. [...] Não nos detemos em analisar a questão um pouco mais a fundo. Não nos interessa estudar o papel que a escravidão teve na formação histórica de nossos negros. [...] O importante é reproduzir de forma acrítica e boçal os preconceitos que nos são passados por piadinhas, por tradição familiar, pela religião, pela necessidade de compensar nossa real inferioridade individual por uma pretensa superioridade coletiva que assumimos ao carimbar “o outro” com a marca de qualquer inferioridade.

Temos pesos, medidas e até vocabulário diferente para nos referirmos ao “nosso” e ao “outro” numa atitude que, mais do que autocondescendência, não passa de preconceito puro. Por exemplo, a nossa é religião; a do outro é seita; [...] nós temos hábitos, eles, vícios; [...] jogamos muito melhor, o adversário tem é sorte; e, finalmente, não temos preconceito, apenas opinião formada sobre as coisas.

Ou deveríamos ser como esses intelectuais que, para afirmar qualquer coisa, acham necessário estudar e observar atentamente? Observar, estudar e agir respeitando as diferenças é o que se espera de cidadãos que acreditam na democracia e, de fato, lutam por um mundo mais justo. De nada adianta praticar indignação moral diante da televisão, protestando contra limpezas raciais e discriminação pelo mundo afora se não ficarmos atentos ao preconceito nosso de cada dia.

(PINSKY, J. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 20/05/93. In: FARACO. Carlos Alberto.

Português: língua e cultura. Curitiba: Base Editora, 2003.)

Na escrita, os sinais de pontuação desempenham a função de demarcadores de unidades e de sinalizadores sintáticos e também podem ser usados como recursos de expressividade.

Sobre o uso de pontuação no texto, analise as afirmativas a seguir.

I - Em Afinal, todos sabemos (sabemos?) que os franceses não tomam banho, a interrogação entre parênteses tem como função questionar o leitor acerca de generalizações pré-estabelecidas.

II - As aspas são utilizadas no primeiro parágrafo para sugerir ironia.

III - No segundo e terceiro parágrafos, o ponto-e-vírgula separa enunciados enumerativos.

IV - No trecho nós temos hábitos, eles, vícios, a segunda vírgula indica a supressão da forma verbal têm.

Está correto o que se afirma em

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas

Assistente de Administração

50 Questões