Pedaço de Vida
Hermes Santos
Nossa amizade já havia completado bodas de prata. Houve um tempo em que éramos dois casais e raro era o fim de semana em que não nos encontrávamos para um churrasco em nossa casa ou na deles, um cinema ou um teatro.
Depois as coisas mudaram e eu fiquei só. Agora, vê-los todos os dias já se tornou habitual.
Quando chego sempre pela manhã, ele já está à minha espera na porta, me conduz ao quarto deles, onde ela está deitada; corpo magro, quase esquelético, o rosto entremostrando uma beleza que fugiu, sombreado pelos raros cabelos e refletindo um espanto contínuo.
Me aproximo: beijo-a na testa e digo sempre à mesma frase: “Você hoje está ótima!”
Atrás de mim, ele balança a cabeça com um sorriso triste nos lábios.
Ontem, mais uma vez fui vê-los.
Ao contrário do costumeiro, fui ao entardecer.
Relembramos, com uma certa nostalgia, momentos de nossas vidas.
Depois, um silêncio cheio de lembranças instalou-se entre nós.
Vamos dar uma volta? Sugeri. Até São Francisco ver o pôr-do-sol?
Saímos de casa. Ele a conduziu, quase carregando-a com muito carinho e jeito.
Apesar do tempo meio quente ela vestia uma blusa amarela de lã.
Enquanto dirigia, observava os dois abraçados no banco de trás, como se não quisessem, jamais, se desprenderem.
Paramos à borda da calçada e ficamos um longo tempo em silêncio olhando as ondas mansas do mar, enquanto um sol avermelhado deixava seus últimos reflexos na água.
Retornamos, e ela, com uma voz muito fraca e doce, pediu:
— Vamos voltar qualquer dia para ver o sol nascer?
Assentimos com a cabeça, enquanto o meu olhar e o dele, compreensivamente magoados com a vida, se encontravam.
Hoje, aí por volta das nove horas da manhã ele me ligou. Disse apenas uma palavra, com a voz molhada pela dor. “Acabou!”
Só consegui recolocar o telefone no gancho, quando as lágrimas, que escorriam dos meus olhos com amarga lentidão, fizeram poças em minhas mãos.
De acordo com as regras da norma culta, houve desvio na colocação do pronome oblíquo átono destacado em: