Uma faísca safira, um frêmito de asas, e o minúsculo
pássaro — ou seria um inseto? — some como miragem
fugaz. Reaparece instantes depois, agora num ângulo
melhor. É pássaro mesmo, um dervixe do tamanho do meu
polegar com asas que batem 80 vertiginosas vezes por
segundo, produzindo um zumbido quase inaudível. As penas
da cauda, à guisa de leme, delicadamente orientam o voo em
três direções. Ele fita a trombeta de uma vistosa flor
alaranjada e do bico fino como agulha projeta uma língua
delgada feito linha. Um raio de sol ricocheteia de suas penas
iridescentes. A cor refletida deslumbra como uma pedra
preciosa contra uma janela ensolarada. Não admira que os
beija-flores sejam tão queridos e que tanta gente já tenha
tropeçado ao tentar descrevê-los. Nem mesmo circunspectos
cientistas resistem a termos como “belo”, “magnífico”,
“exótico”.
Surpresa maior é o fato de o aparentemente frágil
beija-flor ser uma das mais resistentes criaturas do reino
animal. Cerca de 330 espécies prosperam em ambientes
diversos, muitos deles brutais: do Alasca à Argentina, do
deserto do Arizona à costa de Nova Scotia, da Amazônia à
linha nevada acima dos 4,5 mil metros nos Andes
(misteriosamente, essas aves só são encontradas no Novo
Mundo).
“Eles vivem no limite do que é possível aos
vertebrados, e com maestria”, diz Karl Schuchmann,
ornitólogo do Instituto Zoológico Alexander Koenig e do
Fundo Brehm, na Alemanha. Schuchmann ouviu falar de um
beija-flor que viveu 17 anos em cativeiro. “Imagine a
resistência de um organismo de 5 ou 6 gramas para viver
tanto tempo!”, diz ele, espantado. Em média, o minúsculo
coração de um beija-flor bate cerca de 500 vezes por minuto
(em repouso!). Assim, o coração desse pequeno cativo teria
batido meio bilhão de vezes, quase o dobro do total de uma
pessoa de 70 anos.
O beija-flor tornou-se a obra-prima da
microengenharia da natureza. Aperfeiçoou sua habilidade de
parar no ar há dezenas de milhões de anos para competir por
parte das flores do Novo Mundo. “Eles são uma ponte entre o
mundo das aves e o dos insetos”, diz Doug Altshuler, da
Universidade da Califórnia em Riverside. Altshuler, que
estuda o voo dos beija-flores, examinou os movimentos das
asas do pássaro. Em virtude da necessidade de sugar néctar
de poucos em poucos minutos, os beija-flores competem
desafiando e ameaçando uns aos outros. Postam-se face a
face no ar, rodopiam, mergulham na direção da grama e
voam de ré, em danças de dominância que terminam tão
subitamente quanto começam.
Internet: http://viajeaqui.abril.com.br (com adaptações). Acesso em 2/12/2011.