Texto
A armadilha dos presentes
Finalmente, o Natal! A esta altura, já ultrapassei os amigos-secretos da empresa, sempre um momento perigosíssimo. Tirar o chefe, por exemplo, é o caos. Gasta-se uma grana para fazer bonito. Às vezes ele nem gosta. Em contrapartida, muitas vezes desembolsei uma nota preta e ganhei do meu amigo um cedezinho bem chinfrim. Também já tentei dar o golpe. Andava no cheque especial. Comprei uma camisa numa ultra superliquidação. Quando meu amigo-secreto, um escritor, abriu o pacote, mal conseguiu falar:
– Puxa, que presente!
Aí deu zebra. Experimentou. Não serviu. Pediu o endereço para trocar. Dei um sorriso amarelíssimo. Prometi cuidar disso. Impossível. Não havia trocas para produtos da liquidação. Enrolei. Ele cobrava.
– E minha camisa?
– Passei lá, mas não gostei de nenhuma. Está para chegar...
Meses depois, ele rugia. Virou piada. Eu no vermelho. Não havia jeito. De amigo-secreto ele tornou-se inimigo declarado. Acabei dando uma camiseta, que ele odiou.
Oferecer presentes é uma armadilha. Inimizades desabrocham diante de um pacote errado. Ou o espírito natalino vira treva. Muitas famílias optam pelo amigo-secreto na noite do dia 24. Dá cada rolo! Uma vez, por engano, um rapaz ganhou uma bolsinha cor-de-rosa de uma tia. Houvera uma troca de última hora (...).
Há presentes que são puro veneno. Uma garota vaidosa quase chorou ao ganhar um creme antirrugas da melhor amiga. Outra revoltou-se quando a nova mulher do ex apareceu com um corpete de lantejoulas lindíssimo, que não serviu. A que presenteou desculpou-se:
– Ah... Eu não sabia que você tinha engordado!
Horror! Estes dias um amigo insistiu em passar na minha casa. Para me levar um livro de receitas de regime.
(...)
Fui chamado de gordo? Agradeço?
Há presentes próximos de tentativas de assassinato. Foi o caso de uma garota que ofereceu uma caixa de bombons para um amigo que acabara de descobrir a diabetes, elevadíssima.
– Come de vez em quando, que não faz mal!
Nada irrita mais as mulheres que presentes úteis. Explico. Mãe frequentemente não ganha nada para si própria. Recebe geladeiras, micro-ondas, panelas e, sempre, o liquidificador! Sim, liquidificador é útil. E barato. Filhos, genros, ex, afilhados, sobrinhos etc. adoram optar pelo dito-cujo.
– Olha o que eu trouxe! Um liquidificador novo.
Adona de casa sorri. Vai fazer o quê?Atirar na cabeça de quem deu? Diz:
– Ai que bom, justamente eu estava precisando.
E bota na prateleira outros quatro ou cinco. Minha mãe, às vésperas de certo Natal, explodiu:
– Este ano quero presente para mim. Não para a casa.
Meu pai, eu e meus irmãos ficamos sem jeito. Acabamos dando o fogão, que já estava comprado. Mamãe não teve alternativa. Suspirou e repetiu o mantra da rainha do lar:
– Que bom, justamente o que eu estava precisando...
Pior receber presente reciclado. Tem gente especialista em passar para a frente o que ganhou anteriormente. Tive um amigo que até guardava as sacolas das roupas de grife que comprava. Depois enfiava outra coisa dentro e mandava ver. Às vezes, até pregava uma etiqueta fake. Na ceia, com o peru recheado na mesa e as luzes da árvore de Natal piscando, o presente era um sucesso.
(...)
E das sacolas saíam bolsas, blusas, echarpes. O rolo é que descobriram o truque. As contempladas iam trocar e ouviam:
– Isso não saiu desta loja. Nem é da grife.
Outras reconheciam o presente:
– Mas isso fui eu quem deu pra ele!
Ficou com uma fama péssima.
O mundo é pequeno. Quem repassa costuma ser distraído. Já ganhei presente onde, ao abrir, descobri o cartão de outra pessoa oferecendo o mimo para quem havia me dado!
Conseguir ultrapassar o Natal sem sequelas é um ato de heroísmo. Tenho uma regra: dou presentes simples, mas compro pensando na pessoa. Nunca passo para a frente o que ganho. Gosto de surpreender, oferecendo lápis de aquarela para meu irmão químico. Quem sabe ele descobre uma coisa nova?
No Natal e nos dias seguintes, as pessoas queridas se tornam mais próximas. O presente vale para provocar um sorriso de alegria. Melhor será se o sorriso durar o ano todo.
(CARRASCO, Walcyr. A armadilha dos presentes. Época. São Paulo: Editora Globo. Edição 710, 26 de dezembro de 2011. p. 116.)
fake – falso; falsificado.
Os dois últimos parágrafos do texto sugerem, segundo o autor: