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2490809 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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TEXTO I

O ESCRETE DO SONHO

Nélson Rodrigues

Quem devia escrever a história do tricampeonato era Mário Filho. Só ele teria a visão homérica do maior feito do futebol brasileiro e mundial. Nunca houve, na face da terra, um escrete tão humilhado e tão ofendido. Vocês se lembram do que aconteceu no Morumbi.

Sempre digo que a torcida vaia até minuto de silêncio. Mas em São Paulo foi demais. A torcida queria Edu, e Zagallo escalou Paulo César. A vaia começou antes do jogo, continuou durante e depois do jogo. Até hoje, não sei como Paulo César sobreviveu ao próprio massacre. Há um tipo de vaia que explode como uma força da natureza. Sim. Uma vaia que venta, chove, troveja e relampeja.

Os jogadores se entreolhavam, sem entender que os tratassem, no Brasil, como o inimigo, como o estrangeiro. Mas não era só a multidão. Também a imprensa, fora algumas exceções, dizia horrores do técnico, do time, dos jogadores.

Todavia, ninguém contava com o homem brasileiro. Cada um de nós é um pouco como o Zé do Patrocínio. O “Tigre da Abolição” era suscetível às mais cavas e feias depressões. Sua retórica sempre começava fria, gaguejante. Seus amigos, porém, iam para o meio da massa e começavam a berrar: — “Negro burro, negro analfabeto, negro ordinário!” E, então, Patrocínio pegava fogo. Dizia coisas assim: — “Sou negro, sim, Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes de minha pátria”. Para assumir a sua verdadeira dimensão, o escrete precisava ser mordido pelas vaias. Foi toda uma maravilhosa ressurreição.

A Copa do México desmontou a gigantesca impostura que a maioria criava em torno do futebol europeu. Os virtuosos, os estilistas, éramos nós; nós, os goleadores; nós, os inventores. E a famosa velocidade? Meu Deus, ganhamos andando.

Pelé, maravilhosamente negro, poderia erguer o gesto, gritando: — “Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes da minha pátria”. E assim, brancos ou pretos, somos 90 milhões de otelos incendiados de ciúme pela pátria.

(Brasil 4 x 1 Itália, 21/6/1970, na Cidade do México. Brasil tricampeão mundial.)

RODRIGUES, Nélson. In: A pátria em chuteiras: novas crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1984. p. 158-160. Texto adaptado.

Mário Rodrigues Filho (*Recife, 1908 †Rio de Janeiro, 1966), ou apenas Mário Filho, era irmão de Nélson Rodrigues. Tido como o maior jornalista esportivo brasileiro de todos os tempos, inovou a maneira de descrever as partidas e falar dos jogadores. Deu nome ao antigo Estádio Municipal do Maracanã, que oficialmente passou a chamar-se Estádio Jornalista Mário Filho. Segundo o cronista, Mário Filho é que deveria escrever a história do tricampeonato: “Só ele teria a visão homérica do maior feito do futebol brasileiro e mundial”. Com o enunciado entre aspas, o cronista quer dizer que Mário Filho

 

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