Leia o texto a seguir para responder à questão.
A nova estética digital
Quem não tem vaidades? E quanto mais
celebrados, mais vaidosos – embora alguns
disfarcem melhor. O cabelo e a maquiagem das
mulheres recebem atenções permanentes.
Repetir a mesma roupa? Os homens, à menor
oportunidade, acertam o nó da gravata e dão uma
olhadinha no cabelo. E têm outras vaidades.
Montblanc? Rolex?
Com a pandemia furiosa de Covid-19,
agora somos todos atores de televisão, qualquer
que seja o evento. Só que não aprendemos a
converter nossas vaidades para a realidade da
telinha. Vale lembrar, quando Kennedy disputou
as eleições com Nixon, antes de ele entrar em
qualquer recinto onde houvesse câmeras de
televisão, seus prepostos asseguravam que a
iluminação estivesse correta. E entrava
maquiado. Nixon não se deu conta dessa liturgia
e suas olheiras eram exageradas por uma
iluminação errada. Parece que essa condição
contribuiu para sua derrota.
Pelo abrupto das novidades, as centenas
de lives, entrevistas, Zooms e transmissões pelo
YouTube são feitas ao arrepio das artes
cinematográficas. A maquiagem pode estar
impecável. Mas e se a iluminação está horrenda?
Carecas brilhando, olhos desaparecidos na
escuridão? Podemos ler as lombadas dos livros
atrás, mas a cara está fora de foco. Muito longe
da câmera, perde-se a expressão facial. Perto
demais, expõe o narigão. Luz fluorescente tinge
a cara de roxo. Contraluz excessiva faz a imagem
enevoada. (...)
Após o trabalhão de aprender a se
maquiar, vestir e apresentar, subitamente, isso é
apenas a metade. Falta o contrarregra do estúdio
cuidando de cada detalhe visual. Na TV, antes da
era forçada das lives, nenhum programa ia ao ar
com alguém praguejando contra panes na
técnica. A eletrônica, sabemos, tanto valoriza a
voz maviosa como exagera o timbre esganiçado.
Por isso foi sempre preciso gravar antes, com
zelo e atenção.
Hoje, não mais. Temos de aprender tudo
de novo. Esboroa a elegância dos modos e da
roupa, diante da presença de dezenas de tropeços
visuais. A epidemia obriga a introduzir outras
habilidades na etiqueta e na elegância. Saber
apresentar-se na tela de videoconferência passou
a fazer parte do nosso repertório de competências
sociais.
CASTRO, Claudio Moura. A nova estética
digital. Veja. 3 jun. 2020. Disponível em
<https://veja.abril.com.br/coluna/claudiomoura-castro/a-nova-estetica-digital/>.