O futebol reinou absoluto por entre guerras e guerra fria, durante a euforia populista e o primeiro luto depressivo da recente ditadura. Nestes confins de Sulamérica desenhava-se, em meio à permanente tragédia da ocupação da terra, o crescimento de uma urbanidade moderna, ainda que precária e cinturada de miséria. Durante setenta anos ou mais, o futebol ritualizou o mito de ver crescer uma cidade entre as cercas do mundo agropastoril, solidamente patriarcal.
Hoje, é menos patriarcal do que antes, menos preso a virilidades de combate, e ocupam menor espaço nas imaginações as fugas, os trabalhos de campo, as migrações forçadas e contínuas que fizeram dos pés, mais talvez do que das mãos, grandes personagens de nossa história. Nem tanto tudo mudou, mas a eclosão urbana, com o telefone, a televisão, o computador e a vida operária, impõe uma liturgia das mãos no lugar da elegia dos pés.
Esportes como o vôlei, praticado por homens ou mulheres, homens e mulheres com igual demonstração de soberania, começam a ser melhor ofício nessa sociedade já nem bem burguesa nem peremptoriamente patriarcal. A virilidade se domestica, e o feminino se reconhece como presença: há algo desse novo jogo naquele pipocar de bola de um lado para o outro de uma rede intocável e suspensa, naqueles campos que não se invadem, nessa disputa em que a concentração e a resistência psicológicas pesam tanto quanto ou mais que a solidez física. Num universo em que a feminilidade e suas próprias deferências impõem também suas (e novas) regras de amor e de combate, o futebol talvez ainda governe; mas não reina mais.
Assinale a opção que contém ERRO sobre fenômeno sintático do texto: