Leia o texto.
No dia seguinte, segunda-feira, não sei se por causa do fígado atingido pelo chocolate ou por causa de nervosismo de beber coisa de rico, passou mal. Mas teimosa não vomitou para não desperdiçar o luxo do chocolate. Dias depois, recebendo o salário, teve a audácia de pela primeira vez na vida (explosão) procurar o médico barato indicado por Glória. Ele a examinou, a examinou e de novo a examinou.
– Você faz regime para emagrecer, menina?
Macabéa não soube responder. –
O que é que você come?
– Cachorro-quente.
– Você às vezes tem crise de vômito?
– Ah, nunca!, exclamou muito espantada, pois não era doida de desperdiçar comida, como eu disse.
O médico olhou-a e bem sabia que ela não fazia regime para emagrecer. Mas era-lhe mais cômodo insistir em dizer que não fizesse dieta de emagrecimento. Sabia que era assim mesmo e que ele era médico de pobres. Foi o que disse enquanto lhe receitava um tônico que ela depois nem comprou, achava que ir ao médico por si só já curava.
Esse médico não tinha objetivo nenhum. A medicina era apenas para ganhar dinheiro e nunca por amor à profissão nem a doentes. Era desatento e achava a pobreza uma coisa feia. Trabalhava para os pobres detestando lidar com eles. (...)
Quando ele avisara que ia examiná-la ela disse:
– Ouvi dizer que no médico se tira a roupa mas eu não tiro coisa nenhuma.
Passara-a pelo raio X e dissera:
– Você está com começo de tuberculose pulmonar.
(LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 66-68. Com cortes.)
Sobre alguns dos recursos narrativos presentes nesse excerto de romance brasileiro, são feitas as seguintes afirmações:
I. Por se tratar de uma narrativa realista, nela o narrador se posiciona como um espectador oculto, assumindo o ponto de vista distanciado de quem tão-somente observa os fatos, dos quais não participa e que tampouco avalia, atendo-se a mostrar objetivamente o que ocorre; daí a ausência de referências ao próprio ato narrativo e ao discurso com que relata.
II. Para reproduzir as palavras efetivamente empregadas pelos personagens, o narrador utiliza marcas gráficas específicas e os chamados verbos “de dizer” (ou dicendi), sinalizadores dessa transcrição direta do discurso citado. Já quando opta por transpor a fala alheia, incorporando-a à sua própria voz ou ao discurso, assinala tal absorção pela adequação dos verbos, como ocorre com as formas conjugadas de “saber” e “ser” usadas na transposição da fala que o médico dirige a Macabéa no momento em que lhe receita um tônico.
III. A fim de adequadamente representar a sequência das ações que envolvem os personagens, o narrador utiliza, além de expressões que as localizam temporalmente, recorrentes já no primeiro parágrafo, a articulação dos tempos dos verbos. No diálogo final, por exemplo, a forma verbal “avisara” assinala um fato anterior à ação expressa pelo verbo “disse”, da mesma frase.
É correto o que se afirma APENAS em