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2926082 Ano: 2023
Disciplina: Português
Banca: UFG
Orgão: UFG

“PROIBIDO ROUBAR. RISCO DE MORTE” Facções consolidam hegemonia na Amazônia e impõem falsa pacificação em áreas dominadas

Fábio Pontes

Na noite do último dia 20 de março, jovens integrantes de facções criminosas da Baixada da Sobral, região com a maior concentração populacional de Rio Branco, receberam um “salve” para sair às ruas. A ordem era marcar território pichando os muros com as iniciais do Comando Vermelho (CV) e o aviso “Proibido Roubar”. Tudo deveria ser registrado em vídeo, para ser enviado aos superiores. Um dos vídeos vazou nas redes sociais. Mostra os “soldados do CV” iluminados pelas luzes de um carro, pichando muros às pressas. Como se ouve no áudio da gravação, a pressa tem motivo: “os homem [polícia] tão atrás de nós, doido, denunciaram”, diz um dos “soldados” na conversa com o chefe. Antes de deixar o local, eles fazem três disparos na direção de uma pessoa que observa, do alto do muro, a “operação”. O alvo não é atingido.

Novidade nos muros da periferia da capital do Acre, as pichações explicitam uma conquista na guerra travada desde 2016 entre o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) nas regiões de fronteira da Amazônia.

O domínio da região é estratégico para a sobrevivência desses grupos criminosos, que têm no tráfico de drogas a principal fonte de financiamento. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o tráfico de cocaína faz circular o equivalente a 4% do PIB brasileiro, o que daria uma cifra em torno de 64 bilhões de dólares. E as rotas que passam pelos estados da Amazônia Legal responderiam por 40% desse volume de dinheiro, cerca de 25 bilhões de dólares.

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“Abaixe o vidro para sua segurança”, diz uma pichação característica das áreas dominadas pelo PCC/B13. “Proibido roubar morador”, lê-se em outra parede. “Passa nada”, ou “Não passa nada”, uma gíria de intimidação aos inimigos, deixando claro que entrar ali é um risco. “Proibido rouba na quebrada. Pagar com a vida”, ou “Proibido roubar. Risco de morte”, avisam os recados cercados pelas iniciais do CV. Apesar de ser mais comum encontrar marcações do PCC/B13, a maior parte dos bairros da periferia de Rio Branco está sob controle do Comando Vermelho.

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O diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Renato Sérgio de Lima, diz que o objetivo da facção, além de impor medo, é angariar legitimidade diante da população das áreas dominadas. “É claro que é uma lei do terror, do medo, mas não é só do medo. Eles estão tentando angariar legitimidade diante da população para poder se fazer presente ali. Evitando que os roubos aconteçam, eles não querem que a polícia vá ao lugar, mas também querem que a população proteja o negócio deles. É uma relação de troca muito perversa, porque quem está com as armas são eles.” Com isso, diz, a população se torna refém desse clima de falsa paz — que na verdade é um clima de guerra.

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Para o coronel da Polícia Militar José Américo Gaia, atual secretário de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) do Acre, todos esses casos de proibição de roubos e a implementação do “tribunal do crime” não passam de uma estratégia de marketing das facções, para passar a impressão de perda de autoridade por parte do Estado. Ele classifica como hollywoodianos os relatos de moradores recorrerem aos chefes das facções para reaver bens furtados. [...] “Eu não diria que no Acre existe uma ausência do Estado. Eu diria que existe uma propaganda de algumas coisas que eles querem implementar. Eles querem colocar isso nos bairros, sendo que no Acre não podemos dizer que a gente perdeu o controle sobre a segurança pública nos bairros”, afirma o secretário. “Isso é uma propaganda. Não retrata e não condiz com a realidade.”

Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/proibido-roubar-risco-de-morte>. Acesso em: 11 jul. 2023.

O uso de aspas como sinal de pontuação no texto

 

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