Instrução: As questões 01 a 08 referem-se ao texto abaixo.
01. “Você não vai lá na tapera se despedir?”, o Pedro
02. perguntou.
03. “Despedir de quem?”
04. O Pedro, naquela hora, parecia o avô Lindolfo.
05. “Eu vou”, ele continuou, “e vai ser agora mesmo.”
06. “Vou contigo”, eu disse e saltei da cama.
07. Nunca mais eu ia ver a tapera, nem chupar as
08. bergamotas e as laranjas que lá eram mais doces por
09. causa da terra gorda do canhadão. No outro dia, assim
10. que saía o sol, a gente pegava o estradão e se ia
11. embora. O meu irmão, tinha ajeitado tudo, era só armar
12. a nossa barraca e viver no acampamento, junto com os
13. outros, feito cigano.
14. Saímos de casa sem fazer barulho, pisando na ponta
15. dos pés. Era noite de lua cheia, de céu estrelado. Pra
16. mim, cada pedaço da estradinha de chão batido tinha
17 uma história.
18. “Aqui”, pensei, “aqui eu caí do Petiço, que era um
19. matungo velho e que nem prestava mais pra puxar o
20. arado.” Eu tinha ido em casa buscar água fresca pro
21. pessoal que estava na roça. Na volta, ia assobiando, o
22. cavalo andava no tranco lá dele, a rédea solta e tudo,
23. tão manso que ele era. O Petiço estava cansado de
24. viver. Tinha um olho cego e os cascos estropiados.
25. Essa minha mão direita segurava um pão de milho com
26. melado; a outra, o garrafão de água. Não se sabe o
27. que assustou o Petiço. Pode ser que um lagarto. Ou
28. uma cobra. Ou, como eu ele também resolveu corco-
29. vear, correr sozinho pela estrada sem peso nenhum
30. ? Ele empinou, eu tentei segurar as crinas, mas caí
31. de cabeça na estrada e desmaiei. Acordei um tempo
32. depois, na cama. Olhei pros lados e vi muita gente: o
33. pai, a mãe, as irmãs, o Pedro, os vizinhos.
34. “Nossa Senhora me ouviu”,
35. “Esse é dos bons,”
36. “Não precisa mais de médico.”
37. “O que foi?”, eu perguntei.
38. “O cavalo chegou na roça sozinho. Saltei no lombo
39. dele e me vim atrás de ti. Te encontrei no chão,
40. no meio do mato, meio que morto. Agora eu ia te levar
41. pra Pau-d'Arco pra ver um médico”, disse o pai.
42. “ a minha mão?”, perguntou Arnaldo, o
43. vizinho e do pai.
44. Sentei na cama e olhei pra mão dele e vi os dedos
45. grossos e as unhas sujas, a palma toda rachada.
46. “Vejo sim”, eu disse e fui me levantando.
47. “Não, senhor”, disse a mãe e me empurrou de volta
48. pro colchão. “Hoje não. Já é noite mesmo, pode ficar
49. aí até amanhã.”
50. Eu não lembrava do que tinha acontecido desde a
51. hora do tombo, antes do meio-dia, até a hora em que
52. acordei com todos eles ao redor da minha cama. Um
53. dia que saiu da minha cabeça foi esse.
Adaptado de: KIEFER, C. Quem faz gemer a terra. 3ª ed. Porto
Alegre: Mercado Aberto, 1993.
Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas das linhas 30, 39, 42 e 43.