Suposta esta primeira verdade, certa e infalível; a segunda
cousa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do
alheio sob pena da salvação não só obriga aos súditos e
particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam, ou
devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a
todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição
é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis,
porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina,
também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os
outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e
o uso. Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim São
Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior
autoridade: a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente
contra vontade de seu dono: “os príncipes tomam muitas cousas a
seus vassalos violentamente, e contra sua vontade; logo, parece
que o roubo é lícito em alguns casos, porque se dissermos que os
príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se
condenariam”. Oh que terrível e temerosa consequência e quão
digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que
têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu
argumento o mesmo Doutor angélico (...). Respondo (diz
S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo
justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que
o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os
príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina
e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição
como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os
mesmos ladrões, quanto mais perigoso e mais comum o dano
com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por
defensores.
Padre António Vieira. Sermão do bom ladrão. Pregado na Igreja da Misericórdia de
Lisboa, no ano de 1655. Internet: <dominiopublico.com.br> (com adaptações).
Julgue o item a seguir, referente a ideias e aspectos gramaticais do texto precedente.
Pela construção dos sentidos do trecho “Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo” (antepenúltimo período), é correto concluir que o termo “lhes” remete a “príncipes”.