Para responder à questão, leia o texto a seguir.
O Google e o futuro do livro
Digite "google" no serviço de pesquisas Google, em www.google.com: a tela indicará a presença da palavra [...] em "mais de 400 milhões" de documentos. Se o sacrilégio não o incomoda, repita a operação e digite "dieu" [deus, em francês]: "cerca de 33 milhões" de documentos serão propostos como retorno.
A comparação basta para compreender por que, nos últimos meses, todos os debates sobre a criação de coleções digitais de livrosvêm sendo fortemente influenciados pelas iniciativas incessantes da empresa californiana. A mais recente é o lançamento [previsto para 2010] da livraria digital paga Google Editions, que explorará comercialmente parte dos recursos acumulados pelo Google Books. A preferência pelo Google, por mais legítima que seja, pode resultarno esquecimento de certas questões fundamentais acarretadas pela digitalização de textos existentes em outra mídia, impressa ou manuscrita.
Essa operação serve como fundamento à criação de coleções digitalizadas que permitirão acesso remoto aos acervos preservados pelas bibliotecas. Aqueles que considerarem inútil ou perigosa essa extraordinária possibilidade que está sendo oferecida à humanidade serão decerto insensatos. Mas nem por isso devemos perder a sensatez.
A transferência do patrimônio escrito de um meio para outro já teve precedentes. No século 15, a nova técnica de reprodução de textos foi colocada a serviço dos gêneros que então dominavam a cultura dos manuscritos: manuais de escolástica, compilações enciclopédicas, calendários e profecias. Nos primeiros séculos da nossa era, a invenção do livro que continua a ser o nosso, em formato códice, com suas folhas, suas páginas e seus índices, acolheu em um novo objeto as escrituras cristãs e as obras dos autores gregos e latinos.
A história não ensina lição nenhuma, apesar do lugar-comum em contrário, mas, nesses dois casos, ela aponta para um fato essencial a compreensão do presente, a saber: que um "mesmo" texto deixa de ser o mesmo quando muda o suporte sobre o qual está inscrito e, com isso, suas formas de leitura e o sentido que lhe venha a ser atribuído por novos leitores. As bibliotecas sabem disso.
Cabe lembrar que proteger, catalogar e permitir o acesso aos textos continua a ser tarefa essencial das bibliotecas, e isso inclui oferecer acesso a todas as formas sucessivas ou concomitantes nas quais os leitores do passado os tenham lido. Essa é a primeira justificação da existência das bibliotecas, como instituição e como local de leitura.
Fonte: CHARTIER, Roger. O Google e o futuro do livro.
Tradução P. Migliatti. Observatório da Imprensa, ed. 566, 01 dez. 2009. Disponível em: <www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o-google-e-o-futuro-do-livro>. Acesso em: 01 abr. 2015. (Adaptado)
Observe o período:
"Mas nem por isso devemos perder a sensatez." (ℓ.36-37)
A respeito das escolhas lexicais e da organização do período no contexto em que ocorre, considere as afirmativas a seguir.
I - A conjunção "nem" poderia ser substituída por "também", para preservar o sentido aditivo expresso no argumento.
II - Se o verbo "perder" fosse substituído por "esquecer", o complemento "a sensatez" seria alterado para "da sensatez", tendo em vista a regência verbal.
III - A correspondência correta do período, se reescrito na voz passiva, seria "Mas nem por isso a sensatez deve ser perdida por nós".
Está(ão) correta(s)