Você ri do quê?
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Humor é a capacidade de rir e fazer rir. É uma característica tão universal e inata, que até mesmo os bebês cegos e surdos dão risada. Isso porque ele faz parte do sistema de recompensa do cérebro, aquele que libera dopaminas e outros hormônios responsáveis pela sensação de prazer - o que torna uma boa risada comparável a fazer sexo, ouvir música ou usar drogas. É, também, um traço de personalidade muito valorizado, tanto que 94% das pessoas consideram ter um senso de humor acima da média o que já é engraçado em si, porque em qualquer situação apenas 50% das pessoas podem estar acima da média.
Dentro da nossa cabeça, o humor nada mais é do que a quebra de um padrão mental. Funciona assim: quando alguém conta uma piada ou narra uma história engraçada, a situação inicial parece perfeitamente normal. O que vem em seguida é que é inesperado - e causa a risada. Para entender essa lógica, vamos fazer aquilo que deveria evitado: explicar uma piada. Peguemos um exemplo:
- Mamãe, cansei de brincar com o vovô.
- Tá bom, filho. Guarde os ossos no caixão, escove os dentes e vá dormir.
A graça nessa piada de humor um tanto macabro está na parte final da história. Com base na primeira frase, ninguém esperaria que o avô da criança estivesse morto. Mas é exatamente isso o que acontece, e o inesperado fato de a piada se passar com uma família mórbida (a Adams, talvez?) faz você rir. Quanto mais impensada e inovadora for a situação, mais engraçada é a cena. [...]
Mas esse negócio de quebrar padrões só é engraçado porque nosso cérebro tem mania de organizar tudo em lógicas perfeitas. Essa habilidade foi reforçada durante milênios pela seleção natural para que pudéssemos, por exemplo, encontrar comida, abrigo e companhia agradável - três elementos que seguem padrões de distribuição. "A habilidade de reconhecer padrões significa que podemos observar e prever o mundo ao redor. Isso deu a nós uma imensa vantagem sobre as outras espécies", diz Alastair Clarke, um teórico da evolução da Universidade de Oxford, na Inglaterra. A padronização não tem limites. Serve também para ligar um nome a um rosto, um resultado a uma conta matemática, um cheiro a uma lembrança. Nossos neurônios procuram padrões em tudo, inclusive em ideias. Se suas ideias foram muito distantes ou muito estranhas uma da outra, voilà, a gargalhada está garantida. [...]
Mas, olhando para todas essas palhaçadas, ninguém diria que achar graça nas coisas é algo importante- o que de fato é. Por ser uma emoção, o humor tem funções que a própria razão desconhece. Primeiro, dar risada é uma forma de se comunicar. Sim, o ato de rir só foi criado pela evolução para que as pessoas ao nosso redor entendessem que estamos achando algo engraçado. "Nesse sentido, o humor é uma comunicação ainda mais antiga que a fala, porque até macacos conversam por meio do riso", diz Rod Martin, professor de psicologia da Universidade de Ontário, no Canadá, que estuda o humor há 30 anos. Segundo, compartilhar histórias engraçadas serve para formar grupos e alianças sociais importantes. São as famosas "piadas internas", que rolam soltas numa roda de amigos, mas que excluem aqueles que não as conhecem. E, terceiro, o humor tem a admirável função de deixar a vida mais leve e amenizar climas tensos. Há registros de que até os prisioneiros dos campos de concentração tiravam sarro dos nazistas. Afinal, quando algo de ruim acontece, nada melhor do que uma piada, certo?
(super.abril. com. br)
O pronome anafórico "isso", que aparece em destaque no texto, pode ser substituído sem perda do sentido original, por: