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TEXTO

Ano-Bom

Aconteceu num mês de fevereiro,

provavelmente o de 1984. Eu e dois amigos da

universidade, um do curso de Jornalismo, outro da

Engenharia, viajamos de carro para passar o

5 carnaval em Laguna. Como eu não dirigia, fiquei

responsável pela animação cultural, gravando fitas

cassete. Nunca tínhamos visto – visto – tanta

mulher bonita.

Depois do Carnaval, descemos para Porto

10 Alegre e retornamos a Santa Catarina, passando

pela Serra Gaúcha. Na subida, almoçamos num

restaurante chamado Colina Verde, que lá está até

hoje, em Nova Petrópolis. Servia-nos uma

garçonete em traje típico alemão. Um dos meus

15 amigos estudava o idioma e puxou assunto com a

moça.

Descobriu que ela falava um alemão que

não existia mais na Alemanha, um dialeto de um

canto da antiga Prússia Oriental que era parte da

20 Polônia desde a Segunda Guerra. Sua colônia de

imigrantes o preservava, como uma cápsula do

tempo. A conversa, assim, não avançou muito.

Como se diz “você é uma gata” em pomerânio?

Tenho outro amigo que se aborrece cada

25 vez que volta ao país onde nasceu. Ele é francês,

filho de francês e fluente no idioma. Porém, como

passou apenas a primeira metade da vida na

França, não baixou as atualizações do dia a dia.

Pede algo no bistrô, e o garçom retruca em inglês

30 ao perceber uma inflexão que lhe soa estrangeira.

Saco.

Na França, em verdade, mesmo parte dos

cidadãos que lá reside tem tido alguma dificuldade

em concluir as atualizações do dia a dia. A

35 tendência a apocopar, ou seja, a suprimir letras ou

sílabas no final das palavras, faz parte do idioma

francês. E as novas gerações, essas então

apocopam adoidado, a ponto de o pessoal de meia

idade boiar.

40 A família de minha mãe era de portugueses.

Meu avô nasceu em Vila Verde, ao norte de Braga.

Ele trabalhava numa loja de calçados no centro do

Rio. Não o conheci.

Minha avó já nasceu no Rio de Janeiro,

45 mas fez parte dos estudos na Lisboa de seus pais.

Tais fatos nos legaram uma sintaxe e um

vocabulário que, a outros, podia soar estranho.

Lembro-me de um colega de colégio perguntando

se eu era brasileiro.

50 Uma das palavras que usávamos lá em

casa é essa aí do título, “ano-bom”. Significa “ano

novo” e, como esta, mais especificamente, o

primeiro dia de um ano. Existe em Guiné Equatorial

até uma ilha batizada Ano-Bom porque foi

55 descoberta em 1º de janeiro de 1473 pelo

navegador português Fernão do Pó, a caminho das

Índias.

“Ano-Bom e “ano-novo” são substantivos.

Precisam de um adjetivo, digamos “feliz”, para se

60 transformarem em votos. Se “ano-novo” é uma

mera constatação astronômica e cronológica, “anobom”

traz embutida a ideia de que os 365 ou 366

dias não teriam como não ser bons. “Vou comprar

um ventilador no ano-bom”, diria minha mãe em

65 algum dezembro que, percebo hoje, era até

bastante ameno.

Interrogo a respeito um amigo brasileiro que

mora e leciona em universidades de Portugal desde

os tempos de Collor presidente. Ele me diz que

70 nunca ouviu a palavra “ano bom” nessas duas

décadas d’além mar. Seus hoje conterrâneos

desejam-lhe “bom ano” ou “feliz ano novo”, como

nós fazemos. Não mais se referem ao ano que

entra como “ano bom”. Sou um dos herdeiros,

75 portanto, de uma cápsula do tempo linguística.

Um desejo sempre é também a admissão

de que aquilo que se deseja pode não ocorrer.

“Feliz ano novo” subentende a existência virtual de

um “infeliz ano novo” etc. Em contrapartida,

80 desacompanhada de adjetivos, a palavra “ano-bom”

não dá margem a dúvidas heréticas. Há nela algo

das certezas da fé. Vai ser bom, e estamos

conversados. A implacável lógica lusitana que nós,

os espertinhos, achamos que é burrice de anedota.

Creio que a palavra “ano bom” desapareceu

de minha vida com a morte de minha mãe, há 20

anos. Não me lembro de minha tia, criada pelos

mesmos pais, usá-la em seus últimos anos de vida.

Assim sendo, não sei por que “ano-bom” voltou-me

90 à cabeça justamente no final de 2015. Se desde

Collor haverá uma passagem de ano em que a

palavra portuguesa soará tão inapropriada, tão

antiquada, será a que se avizinha.

Seja como for, “ano-bom” é hoje uma

95 palavra que não consigo escrever sem as aspas,

apenas um verbete nos dicionários, um tema para

uma última coluna do ano, uma memória de tempos

que só se tornam melhores porque já feriram o que

tinham de ferir.

(Arthur Dapieve, O Globo, 25 de dezembro de 2015,

Segundo Caderno, página 6)

“Depois do Carnaval, descemos para Porto Alegre e retornamos a Santa Catarina, passando pela Serra Gaúcha. Na subida, almoçamos num restaurante chamado Colina Verde, que lá está até hoje, em Nova Petrópolis. Servia-nos uma garçonete em traje típico alemão. Um dos meus amigos estudava o idioma e puxou assunto com a moça.” (Linhas 9-16)

A construção do enunciado acima configura uma estrutura de:

 

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