Magna Concursos
3482287 Ano: 2010
Disciplina: Português
Banca: CEFET-MG
Orgão: CEFET-MG

Texto

TIM TIM

Luis Fernando Veríssimo

Não se veem mais patacas e dobrões, a não ser em filme de pirata. Moedas de encher algibeiras e baús e pesar no bolso. Moedas sonantes e ressonantes.

Uma vez fui investigar a origem da expressão “tim tim por tim tim” e não encontrei nenhuma raiz grega ou tupi-guarani. “Tim” era apenas a reprodução onomatopéica do barulho que fazia uma moeda batendo na outra. O som de metal contra metal. Pagar alguém era colocar moedas na sua mão, e o ruído de um metal sobre o outro – tim, tim, tim, tim – era o registro de uma transação bem saldada, de algo trocado pelo seu valor em ouro ou prata, com todos tins devidos. As moedas não representavam outra coisa, as moedas eram o dinheiro – soavam como dinheiro. Depois veio o papel moeda que tecnicamente não é dinheiro, é uma vaga promessa de algum dia se transformar em ouro ou prata, e começamos nosso afastamento tim tim. Culminando com as vastas somas virtuais que hoje cruzam os céus de computador para computador, em silêncio.

Ganhamos o dinheiro asséptico, intocado por mãos humanas, mas perdemos a onomatopéia.

Cartões de crédito, por exemplo. Nada numa transação com cartão de crédito evoca um sonoro pagamento com patacões. O cartão de crédito substitui o papel moeda, que por sua vez é uma representação da moeda mesmo, e assim é quase a sombra de uma sombra. E sombras não fazem barulho. Ouve-se apenas o “suish” do cartão sendo passado na maquininha. Não surpreende que, na falta do tim tim, as pessoas se esqueçam de que o cartão de crédito também não é dinheiro, é apenas uma promessa de pagamento futuro, uma presunção de que haverá ouro para cobri-lo. E se o pressuposto pagador não é nem quem usou o cartão, é a firma, o governo, o tesouro nacional ou qualquer outra entidade tão remota que parece etérea, compreendem-se os abusos. Faltou autocontrole diante da tentação, faltaram supervisão e regras claras, faltou inteligência. Mas, acima de tudo, faltou o tim tim.

***

Há alguns dias, conheci a minha neta. Antigamente só se tinha este prazer depois da criança nascer. Não se sabia nem de que sexo seria. Hoje, com a ecografia, fica-se sabendo tudo. Já vi o seu rosto, o movimento da sua boca – e juro que ela botou a língua! Talvez contrariada com aquela invasão da sua privacidade pré-natal. E mais não conto em respeito a meus ex-companheiros do Movimento dos Sem Neto. Não quero humilhar o Scliar.

Disponível em: http://zerohora.clicrbs.com.br, acessado em 20 de março de 2010

Pode-se afirmar que o texto tem como objetivo

 

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