Magna Concursos
1352626 Ano: 2015
Disciplina: Português
Banca: UFMT
Orgão: IF-MT
INSTRUÇÃO: Leia o trecho de Deus de Caim de Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), e responda a questão a seguir.
Na rede Lázaro. Zumbidos. O irmão morto na rede. O mundo rodeando sua roda indiferente. As moscas voavam lentas e pousavam na cara dele. Não se importava, Lázaro morto, narinas paradas. Todos os telégrafos diziam: Lázaro morreu e vai ser enterrado. Para sempre. Antigamente, diziam, havia a ressurreição. Agora não. Agora a sombra que abandona este reino de sombras, caminha para sempre só, num outro reino de sombras ainda mais solitárias. Só, como um rei perdido, só, sem reinado, na essência redonda da morte. Tão fácil, morrer. Como acontecera que guiara aquele ferro frio nas entranhas de outro filho, o mais querido de sua mãe? Lázaro, morrer e ser enterrado. Agora, se entristecia a pensar. Homem morto. Rato morto. Um cheiro de figos maduros incendiava-lhe as narinas, forte, penetrante, morcegos andavam de dia? Andavam ficando diurnos, comendo os frutos da figueira. Lembrou-se de quando morrera a mãe. Fora o mesmo. Ficara assim cinco dias e assim mesmo, sem caixão, na rede, sem nada, aquele fedor decomposto – coitada, a mãe, que fizera para terminar com um cheiro daqueles? Qualquer cachorro morto, ao sol, no meio da estrada, fedia do mesmo jeito. Pois, agora, dois anos se passaram que ela estava morta, respiração da morte no fundo da terra. O velho se fora primeiro, quando ainda não nascera. Nunca soubera como foram o velório, o enterro. Devia ter sido chato, como sempre. Até ele mesmo, que se precavesse, ia ser assim também, não pensasse grandezas. No enterro da mãe, as amigas da velha vieram de dez léguas por redor. Era conhecida. Neste, só ele cuidava o morto. Seu irmão Lázaro. No fundo não se assustava. Sabia o que era a morte. Viviam dentro dela, respirando vida, mas tudo era estar-se para morrer, nada mais. Tinha de ser. E quem o soubera? Pé da serra do Juradeus, por perto de Cuiabá. Nem sertão, nem arrabalde. Mais ou menos. Viviam da vendinha que lhes deixara, mambembe, uma merda, o pai. O vizinho mais próximo era longe. E todo fim de semana ir à vila do Pasmoso, comprar mantimentos e voltar com o jeguinho carregado, o estirão queimando as alpercatas como fogo. Era uma vidinha até que agradada. Tão manso. Dava pra imaginar. Imaginar no quê? Qualquer coisa, ora bosta, mandar o irmão pros quintos, por exemplo. Mas era doloroso. Doloroso, o diabo. Mas sem remédio. Como um buraco. Depois que se caiu, está caído. Dane-se.
(DICKE, R. G. Deus de Caim. São Paulo: Letra Selvagem, 2010.)
Sobre a organização da narrativa, marque a afirmativa correta.
 

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