Proprietária de alguns sítios, todos situados na região árida e pobre, intermediária entre o Sertão Seco e a rica área verde do Cariri, a família Augusto, quando ainda unida, vivia no Sítio do Tatu. Era uma propriedade comum: casa grande com alpendre, açude, engenho, uma fileira de casas de taipa para os negros; seria uma das únicas da região a ter uma capela. Tratava-se da área de maior concentração de escravos nos sertões, a ponto de existirem quadrinhas abordando esse estranho recorde: “Caraíba é prata fina/Sussuarana, ouro em pó/Xique Xique é mala veia/E o Tatu é negro só” e “O Tatu para criar negros/Sobradim pra criação/São Francisco para fuxico/Calabaço pra algodão”. Talvez o grande número de escravos no Sítio do Tatu se devesse ao fato de Federalina possuir um grupo de escravas que eram usadas como parideiras de moleques, que após algum tempo eram vendidos ao aparecer comprador.
Uma das histórias de crueldade de Dona Federalina (que deve ser mentirosa) versa sobre uma dessas negras parideiras e o filho que seria vendido, embora já estivesse com ela havia mais de um ano. A escrava, agarrada à criança, correu para o mato, mas Federalina deu ordem para que fossem atrás e trouxessem o menino. Na tentativa de proteger o filho, a negra foi apunhalada; ainda correu para casa, e lá a patroa mandou que mãe e filho fossem embebidos com querosene, e ela própria ateou-lhes fogo. A escrava, soltando o filho, debateu-se até morrer. Conta-se que as marcas de sangue da negra não saíam nunca da parede, mesmo que a caiassem continuamente. O reboco teve de ser retirado, e um outro feito em seu lugar.
Rachel de Queiroz e Heloísa Buarque de Hollanda. Matriarcas do Ceará D. Federalina de Lavras. Internet: <www.ime.usp.br> (com adaptações).
Julgue o próximo item, acerca dos sentidos e de aspectos linguísticos do texto.
Estaria mantida a correção gramatical do texto caso o pronome “lhes” fosse deslocado para antes da forma verbal “ateou”.