Passado muito tempo, resolvi tentar falar […]. Ainda recordo da palavra que escolhi: arado […]. Gostava do som redondo, fácil e ruidoso que tinha ao ser anunciado. “Vou trabalhar no arado.” “Vou arar a terra.” “Seria bom ter um arado novo, esse arado está troncho e velho.” O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem, como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada. Tentei outras vezes, sozinha, dizer a mesma palavra, e depois outras, tentar restituir a fala ao meu corpo […].
Fonte: VIEIRA JR., Itamar. Torto Arado. 12 reimpressão. São Paulo: Ed. Todavia, 2021. p. 127.
Na passagem “Tentei outras vezes, sozinha, dizer a mesma palavra, e depois outras, tentar restituir a fala ao meu corpo”, o autor do livro, por meio da personagem, reflete sobre a associação entre língua, fala e arado. Nesse contexto, o autor