Para responder às questões de 01 a 10, leia o texto abaixo.
Interferência do Tempo
- Há quem diga que o tempo não existe, que somos
- nós que o inventamos e tentamos controlá-lo com
- nossos relógios calendários. Nem ousarei discutir
- essa questão filosófica, existencial e cabeluda. Se o
- tempo não existe, eu existo.Se o tempo não passa, eu
- passo. E não é só o espelho que me dá a certeza disso.
- O tempo interfere no meu olhar. Lembro do
- colégio em que estudei durante mais de uma década,
- meu primeiro contato com o mundo fora da minha
- casa. O pátio não era grande - era colossal. Uma
- espécie de superfície lunar sem horizontes à vista,
- assim eu o percebia aos sete anos de idade. As
- escadas levavam ao céu, eu poderia jurar que elas
- atravessavam os telhados. Os corredores eram
- passarelas infinitas, as janelas pareciam enormes
- portões de vidro, eu me sentia na terra dos gigantes.
- Volto, depois de muitos anos, para visitá-lo e descubro
- que ele continua sendo um colégio grande, mas nem o
- pátio, nem os corredores, nem as escadas, nada tem
- o tamanho que parecia ter antes. O tempo ajustou
- minhas retinas e deu proporção às minhas ilusões.
- A interferência do tempo atinge minhas emoções
- também. Houve uma época em que eu temia certo tipo
- de gente, aqueles que estavam sempre a postos para
- apontar minhas fraquezas. Hoje revejo essas pessoas,
- e a sensação que me causam não é nem um pouco
- desafiadora. E mesmo os que amei já não me
- provocam perturbação alguma, apenas um carinho
- sereno. Me pergunto como é que se explica que
- sentimentos tão fortes como o medo, o amor ou a raiva
- se desintegrem. Alguém era grande no meu passado,
- fica pequeno no meu presente. O tempo, de novo,
- dando a devida proporção aos meus afetos e
- desafetos.
- Talvez seja esta a prova da sua existência: o
- tempo altera o tamanho das coisas. Uma rua da
- infância, que exigia muitas pedaladas para ser
- percorrida, hoje é atravessada em poucos passos.
- Uma árvore, que para ser explorada exigia uma certa
- logística - ou ao menos um "calço" de quem estivesse
- por perto e com as mãos livres-, hoje teria seus galhos
- alcançados num pulo. A gente vai crescendo e vê tudo
- do tamanho que é, sem a condescendência da
- fantasia. E ainda nem mencionei as coisas que
- realmente foram reduzidas: apartamentos que
- parecem caixotes, carros compactos, conversas
- telegráficas, livros de bolso, pequenas salas de
- cinema, casamentos curtos. Todo aquele espaço da
- infância, em que cabia com folga nos a imaginação e
- inocência, precisa hoje se adaptar ao micro, ao
- mínimo a uma vida funcional. Eu cresci. Por dentro e
- por fora' (e, reconheço, pros lados). Sou gente grande,
- como se diz por aí. E o mundo à minha volta, à nossa
- volta virou aldeia somos todos vizinhos, todos
- vivendo apertados, financeira e emocionalmente
- falando. Saudade de uma alegria descomunal, de uma
- esperança gigantesca, de uma confiança do tamanho
- do futuro - quando o futuro também era infinito à nossa
- frente.
Autor: Martha Medeiros (adaptado).
O adjetivo colossal (l.10) poderia ser substituído, sem que houvesse alteração de sentido no texto, EXCETO POR:
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