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3352898 Ano: 2012
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: Pref. Castanhal-PA
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COM BASE NA LEITURA DO TEXTO “EU SEI, MAS NÃO DEVIA”, ASSINALE A ALTERNATIVA QUE COMPLETA CORRETAMENTE AS QUESTÕES DE 01 A 09.


Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

  • Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
  • A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista
  • que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para
  • fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E,
  • porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida
  • que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
  • A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A
  • tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode
  • perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do
  • trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e
  • dormir pesado sem ter vivido o dia.
  • A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra,
  • aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não
  • acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler
  • todo dia da guerra, dos números, da longa duração. [...]
  • A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a
  • lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer
  • fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará
  • mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas
  • filas em que se cobra.
  • A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver
  • anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A
  • ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
  • A gente se acostuma à poluição. s salas fechadas de ar condicionado e cheiro
  • de cigarro. luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural.
  • s bactérias da água potável. contaminação da água do mar. lenta morte dos rios. Se
  • acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos
  • cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
  • A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas,
  • tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta
  • acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
  • Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o
  • trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de
  • semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque
  • tem sempre sono atrasado.
  • A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se
  • acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para
  • poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que,
  • gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
  • Disponível em: <http://www.releituras.com/mcolasanti_eusei.asp>.Acesso em: 7 maio 2012.

Outro título conveniente para o texto de Marina Colasanti seria

 

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