O anjo vendo as horas
O céu está limpo, não há nenhuma nuvem acima de nós.
O avião, entretanto, começa a dar saltos e temos de pôr os cintos para evitar uma cabeçada na poltrona da frente. Olho pela janela: é que estamos sobrevoando de perto um grande tumulto de montanhas.
As montanhas são belas, cobertas de florestas; no verde-escuro, há manchas de ferrugem de palmeiras, algum ouro de ipê, alguma prata de embaúba – e, de súbito, uma cidade linda e um rio estreito. (...)
É fácil explicar que o vento das montanhas faz corrente para baixo e para cima, como também o ar é mais frio debaixo da leve nuvem. A um passageiro assustado, o comissário diz que “isso é natural”. Mas o avião, com o tranquilo conforto imóvel com que nos faz vencer milhas em segundos, havia nos tirado o sentimento do natural.
Somos hóspedes da máquina. Os motores foram revistos, estão perfeitos, funcionam bem, e temos nossas passagens no bolso: tudo está em ordem.
Os solavancos nos lembram de que a natureza insiste em existir, e ainda nos precipita além dela, para os reinos azuis da Metafísica. Pode o avião vencer a montanha e desprezar as passagens antigas que a humanidade sempre trilhou. Mas sua vitória não pode ser saboreada de perto: mesmo debaixo, a montanha ainda fez sentir que existe (...). Assim a humilde lagoa, assim a pequena nuvem: a tudo isso somos sensíveis dentro do nosso monstro de metal.
A menina disse que era mentira, que não se via anjo nenhum nas nuvens. O homem, porém, explicou que sim, e pediu que eu confirmasse. Eu disse:
- Tem anjo sim. Mas tem muito pouco. Até agora desde que saímos eu só vi um, e assim mesmo de longe. Hoje em dia há poucos anjos no céu. Parece que eles se assustam com os aviões. Nessas nuvens maiores nunca se encontra nenhum. Você deve procurar nas nuvenzinhas pequenas, que ficam separadas umas das outras; é nelas que os anjos gostam de brincar. Eles voam de uma para outra.
A menina queria saber de que cor eram as asas dos anjos e de que tamanho eles eram. O homem explicou que os anjos tinham asas da mesma cor daquele vestidinho da menina e eram de seu tamanho. Ela começou a duvidar novamente, mas chamamos o comissário de bordo.
Ele confirmou a existência dos anjos com a autoridade de seu ofício. Era impossível duvidar da palavra do comissário de bordo, que usa uniforme e voa todo dia para um lado e outro. E, além disso, ele tinha um argumento impressionante: “Então você não sabia que tem anjos no céu?”. E perguntou se ela tinha vontade de ser anjo.
- Não.
- Que é que você quer ser?
- Aeromoça!
E começou a nos servir biscoitos. Dois passageiros que estavam cochilando acordaram assustados porque ela apertou o botão que faz descer as costas das poltronas. Mas depois riram e aceitaram os biscoitos.
(...)
Começamos a descer. E quando o avião tocava o solo, naquele instante de leve tensão nervosa, ela se libertou do cinto (...) E disse que queria sair primeiro porque estava com muita pressa para ver as horas na torre do edifício ali perto, pois já sabia ver as horas.
Não deviam ter-lhe ensinado isso. Ela já sabe tanta coisa! As horas se juntam, fazem os dias, fazem os anos, e tudo vai passando, e os anjos depois não existem mais, nem no céu, nem na terra.
BRAGA, Rubem. O anjo vendo as horas. 1ª ed. São Paulo: Global Editora, 2021. Texto adaptado.
TEXTO 4

(Disponível em: <https://i.pinimg.com/originals/33/e2/ea/33e2eaa1e04c755dae74e3176b755641.jpg>. Acesso em jul2022.)
De acordo com os trechos 1 e 2, e considerando o sentido dos textos dos quais foram retirados, Texto 01 e Texto 04, respectivamente, julgue como verdadeiras (V) ou falsas (F) as afirmações a seguir. Em seguida, assinale a alternativa que contém a sequência correta.
I - Pode-se inferir um sentido semelhante entre a expressão “os anjos”, de que fala o narrador do trecho 1, e a expressão “o menino que fomos”, no trecho 2.
II - No trecho 2, a expressão “Com o tempo” indica que a passagem do tempo contribui para que o menino de que fala o pai de Armandinho acabe adormecendo, enquanto que, no trecho 1, o narrador não considera que a passagem do tempo faça os anjos deixarem de existir.
III - O uso de “nós” e de “fomos”, no trecho 2, refere-se às pessoas de modo geral, não apenas ao pai de Armandinho.
IV - De acordo com o trecho 1, o narrador conclui que os anjos nunca existiram.
V - Ambos os trechos utilizam um sentido figurado para tratar sobre o mesmo tema: o fim da infância.
Estão corretas as alternativas: