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2460819 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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Texto 1

O texto 1 desta prova é da autoria do intelectual cearense Gustavo Barroso, que nasceu em Fortaleza, no ano de 1888 e morreu no Rio de Janeiro, em 1959. Professor, jornalista, ensaísta, romancista, foi membro da Academia Brasileira de Letras. A obra À margem da história do Ceará, em dois volumes, foi seu último trabalho. É uma reunião de setenta e seis artigos e crônicas que falam exclusivamente sobre a história do Ceará entre 1608 e 1959. O texto transcrito abaixo foi extraído do segundo volume e, como vocês poderão ver, é um artigo sobre a obra do também cearense Manuel de Oliveira Paiva, Dona Guidinha do Poço. Servindo-se de uma pesquisa feita pelo historiador Ismael Pordeus, Gustavo Barroso fala do romance de Oliveira Paiva, mais especificamente, das relações entre essa obra literária e a verdade histórica que ela transfigura.

A verdadeira D. Guidinha do Poço

Na última década do século passado, entre os tipos populares da cidade de Fortaleza, capital do Ceará, minha terra natal, andava uma velha desgrenhada, farrapenta e suja, que a molecada perseguia com chufas, a que ela replicava com os piores doestos deste mundo. Via-a muitas vezes na minha meninice, ruas abaixo e acima, carregando uma sacola cheia de trapos, enfurecida, quando os garotos gritavam: — Olha a mulher que matou o marido! A gente adulta chamava-lhe a velha Lessa. Tinha terminado de cumprir sua pena na cadeia pública e andava assim de léu em léu, sem teto e sem destino, como um resto de naufrágio açoitado pelo mar. Sua figura acurvada e encanecida me impressionava, mas naquele descuidoso tempo longe estava eu de supor que contemplava na mendiga semitrôpega a figura central duma tragédia real e dum romance destinado a certa celebridade literária.

O romance é D. Guidinha do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva, escritor cearense nascido em 1861 e falecido em 1892.

O que até recentemente se não sabia sobre este livro notável é que não passa de uma história romanceada com a maior fidelidade possível aos elementos humanos, sociais e paisagísticos da realidade. Segundo o historiador Ismael Pordeus, o romance narra simplesmente, com nomes e topônimos diversos, o crime cometido pela velha Lessa a mulher que matou o marido da molecada fortalezense de há mais de meio século (sic).

O marido, o coronel Domingos Víctor de Abreu e Vasconcelos, pacato e respeitável, verificando que sua mulher andava de amores com um sobrinho pernambucano, Senhorinho Antônio Pereira da Costa, sem bulha nem matinada, dela se afastou, deixando-a na fazenda onde coabitavam e passando a residir na então vila de Quixeramobim. Vivia, no entanto, tão desassossegado, receando qualquer atentado por parte da esposa, cujo caráter conhecia, que pedira garantias de vida às autoridades e andava pelas ruas sob a guarda do destacamento policial. Mas, certa manhã, ao receber em casa seu afilhado e agregado Curumbé, que lhe vinha pedir a bênção, este o apunhalou.

O criminoso foi detido por dois homens, já à saída da vila na Rua do Velame. Confessou ter atuado por ordem de D. Maria Francisca de Paula Lessa, a D. Marica, que o delegado no mesmo dia foi buscar na fazenda Canafístula e trancafiou na cadeia, no andar térreo da Câmara Municipal. Mulher rica e mandona, estava certa de desafiar a justiça e obter rapidamente a liberdade. Todavia saiu-lhe o trunfo às avessas. Condenada a 30 anos de prisão, terminou “seus últimos anos de vida na mais extrema miséria, implorando a caridade pública nas ruas de Fortaleza. Circunstância especial: conservou sempre como residência, mesmo depois de cumprida a pena, a cela em que estivera reclusa na cadeia da capital. Jamais quis tornar a Quixeramobim: orgulho ou remorso?”

Gustavo Barroso. À margem da história do Ceará. v. 2, 3 ed. p. 347-350. Texto adaptado.

Observe o que se diz sobre o período seguinte: “Na última década do século passado, entre os tipos populares da cidade de Fortaleza, capital do Ceará, minha terra natal, andava uma velha desgrenhada, farrapenta e suja, que a molecada perseguia com chufas, a que ela replicava com os piores doestos deste mundo.”.

I. A preposição “entre”, em “entre os tipos populares de Fortaleza”, poderia ser substituída por “em meio a”.

II. Em “capital do Ceará, minha terra natal”, há dois apostos. Podemos entender que os dois explicitam “cidade de Fortaleza”, ou que o segundo explicita “capital do Ceará”. No segundo caso, teremos um aposto dentro de outro aposto.

III. Dentro do contexto, poderíamos substituir o artigo indefinido uma, em “uma velha desgrenhada”, pelo artigo definido a.

Está correto o que se diz em

 

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