A dupla moral e as santinhas de pau oco
Durante 1 o século XIX, continuavam sem punição as infidelidades descontínuas e transitórias por parte dos homens casados, bem como se toleravam concubinatos de escravas com seus senhores. As regras do celibato eram abertamente desrespeitadas. Embora não haja estatísticas sobre o assunto, é de se supor que as relações extraconjugais fossem correntes. O adultério perpetuava-se como sobrevivência de doutrinas morais tradicionais. Fazia-se amor com a esposa quando se queria descendência; no restante do tempo, era com a outra. A fidelidade conjugal era sempre tarefa feminina; a falta de fidelidade masculina era vista como um mal inevitável que se havia de suportar. Era sobre a honra e a fidelidade da esposa que repousava a perenidade do casal.
Mas seriam elas tão santinhas assim? Os amores adúlteros custavam caro para as mulheres de elite. Em 1809, certo João Galvão Freire achou-se preso, no Rio de Janeiro, por ter, confessadamente, matado sua mulher, D. Maria Eufrásia de Loiola. Alegando legítima “defesa da honra”, encaminhou ao Desembargo do Paço uma petição solicitando “seguro real para, solto, tratar de seu livramento”. A resposta dos desembargadores não deixa dúvidas sobre a tolerância que rodeava tais tipos de crimes: “a ocasião em que este [o marido] entrou em casa, os achou ambos, esposa e amante, deitados numa rede, o que era bastante suspeitar a perfídia e o adultério e acender a cólera do suplicante, que, levado de honra e brio, cometeu aquela morta em desafronta sua, julgando-se ofendido”.
Já entre mulheres de camadas desfavorecidas, a solução era a separação. Algumas mais corajosas ou tementes a Deus declararam, em testamento, que, “por fragilidade humana”, tiveram cópula ilícita durante o matrimônio.
Mary Del Priory. História do amor no Brasil. São Paulo: Contexto, 2005, p. 187-192 (com adaptações).
Com base no texto acima, julgue o seguinte item.
Há, no texto, elementos que permitem inferir que o objetivo do casamento, no século XIX, era a constituição da prole e a garantia de descendência, o que está relacionado a casamentos frequentemente acordados por questões econômicas e de poder.