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Presente perfeito
Aproveito a chegada do 13° salário e a proximidade
do Natal para discutir o presente perfeito. Num mundo
perfeitamente racional, ninguém nem pestanejaria antes
de presentear seus familiares e amigos com dinheiro
vivo.
Em princípio, nada pode ser melhor. Elimina-se o
risco de errar, pois o presenteado escolhe o que quiser, e
no tamanho certo. Melhor, ele pode juntar recursos de
diversas origens e comprar um item mais caro, que
ninguém sozinho poderia oferecer-lhe.
Só que o mundo não é um lugar racional. Se você
regalar sua mulher com um caríssimo jantar na
expectativa de uma noite tórrida de amor, estará sendo
romântico. Mas, se ousar oferecer-lhe dinheiro para o
mesmo fim, torna-se um simples cafajeste.
Analogamente, você ficará bem se levar um bom
vinho para o almoço de Dia das Mães na casa da sogra.
Experimente, porém, sacar a carteira e estender-lhe R$
200 ao fim da refeição e se tornará “persona non grata”
para sempre naquele lar.
Essas incongruências chamaram a atenção de
economistas comportamentais, que desenvolveram
modelos para explicá-las. Aparentemente, vivemos em
dois mundos distintos, o das relações sociais e o da
economia de mercado. Enquanto o primeiro é regido por
valores como amor e lealdade, o segundo tem como
marca indexadores monetários e contratos. Sempre que
misturamos os dois registros, surgem mal-entendidos.
O economista Dan Ariely vai mais longe e propõe
que, no mundo das relações sociais, o presente serve
para aliviar culpas: ofereça ao presenteado algo de que
ele goste, mas acha bobagem comprar, como um jantar
naquele restaurante chique ou um perfume um pouco
mais caro. O que você está lhe dando, na verdade, é uma
licença para ser extravagante.
Segundo Ariely, é esse mecanismo que explica o
sucesso de vales-presentes e congêneres, que nada mais
são que dinheiro com prazo de validade e restrições de
onde pode ser gasto.
(Hélio Schwartsman. Folha de S.Paulo, 4/12/2011, com adaptações)