O porteiro da noite do edifício Deauville ouviu o ruído dos passos furtivos descendo as escadas. Era uma hora da madrugada e o prédio estava em silêncio. "Então, Raimundo?” “Vamos esperar um pouco”, respondeu o porteiro. "Não vai chegar mais ninguém. Já está todo mundo dormindo.” “Mais uma hora.” "Amanhã tenho que acordar cedo.” O porteiro foi até a porta de vidro e olhou a rua vazia e silenciosa. “Está bem. Mas não posso demorar muito” No oitavo andar. A morte se consumou numa descarga de gozo e de alívio, expelindo resíduos excrementicios e glandulares — esperma, saliva, urina, fezes. Afastou-se, com asco, do corpo sem vida sobre a cama ao sentir seu próprio corpo poluído pelas imundícies expulsas da carne agônica do outro. Foi ao banheiro e lavou-se com cuidado sob o chuveiro do box. Uma dentada no seu peito sangrava um pouco. No armário da parede havia iodo e algodão, que serviram para um curativo rápido. Apanhou sua roupa sobre a cadeira e vestiu-se, sem olhar para o morto, ainda que tivesse a aguda consciência da presença do mesmo sobre a cama. Não havia ninguém na portaria quando saiu.
SONDA BONA Autor: Rubem Fonseca (adaptado)
O vocábulo asco (l. 13) poderia ser substituído, sem alterar o sentido expresso no texto, por: I. Nojo; II. Aversão; III. Afeição. Está(ão) CORRETA(S):