Magna Concursos
107908 Ano: 2018
Disciplina: Português
Banca: Itame
Orgão: Pref. Aruanã-GO

Cem cruzeiros a mais

Fernando Sabino

Ao receber certa quantia num guichê doMinistério, verificou que o funcionário lhe haviadado cem cruzeiros e mais. Quis voltar paradevolver, mas outras pessoas protestaram: entrassena fila.

Esperou pacientemente a vez, para que ofuncionário lhe fechasse na cara a janelinha devidro:

– Tenham paciência, mas está na hora do meu café.Agora era uma questão de teimosia. Voltou à tarde,para encontrar fila maior – não conseguiu sequeraproximar-se do guichê antes de encerrar-se oexpediente.

No dia seguinte era o primeiro da fila:

– Olha aqui: o senhor ontem me deu cem cruzeirosa mais.

– Eu?

Só então reparou que o funcionário era outro.

– Seu colega, então. Um de bigodinho.

– O Mafra.

– Se o nome dele é Mafra, não sei dizer.

– Só pode ter sido o Mafra. Aqui só trabalhamos

eu e o Mafra. Não fui eu. Logo…

Ele coçou a cabeça, aborrecido:

– Está bem, foi o Mafra. E daí?

O funcionário lhe explicou com toda urbanidadeque não podia responder pela distração do Mafra:

– Isto aqui é uma pagadoria, meu chapa. Não possoreceber, só posso pagar. Receber, só narecebedoria. O próximo!

O próximo da fila, já impaciente, empurrou-o como cotovelo. Amar o próximo como a ti mesmo!Procurou conter-se e se afastou, indeciso. Numsúbito impulso de indignação – agora iria até o fim – dirigiu-se à recebedoria.

– O Mafra? Não trabalha aqui, meu amigo, nemnunca trabalhou.

– Eu sei. Ele é da pagadoria. Mas foi quem me deuos cem cruzeiros a mais.

Informaram-lhe que não podiam receber: tratava-sede uma devolução, não era isso mesmo? E não depagamento. Tinha trazido a guia? Pois então?

Onde já se viu pagamento sem guia? Receber milcruzeiros a troco de quê?

– Mil não: cem. A troco de devolução.

– Troco de devolução. Entenda-se.

– Pois devolvo e acabou-se.

– Só com o chefe. O próximo!

O chefe da seção já tinha saído: só no dia seguinte.No dia seguinte, depois de fazê-lo esperar mais demeia hora, o chefe informou-se que deveria redigirum ofício historiando o fato e devolvendo odinheiro.

– Já que o senhor faz tanta questão de devolver.

– Questão absoluta.

– Louvo o seu escrúpulo.

– Mas o nosso amigo ali do guichê disse que era sóentregar ao senhor – suspirou ele.

– Quem disse isso?

– Um homem de óculos naquela seção do lado delá. Recebedoria, parece.

– O Araújo. Ele disse isso, é? Pois olhe: volte lá ediga-lhe para deixar de ser besta. Pode dizer quefui eu que falei. O Araújo sempre se metendo aentendido!

– Mas e o ofício? Não tenho nada com essa briga,vamos fazer logo o ofício.

– Impossível: tem de dar entrada no protocolo.

Saindo dali, em vez de ir ao protocolo, ou aoAraújo para dizer-lhe que deixasse de ser besta, ohonesto cidadão dirigiu-se ao guichê onde receberao dinheiro, fez da nota de cem cruzeiros umabolinha, atirou-a lá dentro por cima do vidro e foi-se embora.

A crônica apresenta fragmentos que evidenciam a lentidão no atendimento do Ministério. Isso pode ser confirmado no trecho:
 

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