TARJA PRETA
Você vai a um médico. Ele pede exames, às vezes desconfortáveis. Remédios caros e amargos. Recomenda até mesmo uma cirurgia. Impõe jejuns e sacrifícios. E você passa a admirá-lo pela clareza e pela sinceridade. Sai da consulta elogiando o profissional que ajudou a curar você ou alguém que você ama.
Se um político recomendar remédios amargos e cirurgias, não se elege. Se um político falar toda a verdade, está fora. Imagine um candidato avisando que não dará aumentos, que terá de elevar impostos, que irá contrariar os interesses 5 das corporações. Um candidato que peça mais inteligência ao consumir, que diga com todas as letras que tudo vai piorar antes de melhorar. Que não use meias palavras. Que pense na cura e não nos votos.
Penso muitas vezes em votar naqueles que me dizem o que não quero ouvir. Falta encontrá-los.
É estranho. Se um médico esconder a minha doença ou não tratá-la só para me agradar, corre o risco de ser processado e obrigado a mudar de profissão. Se um político fizer isso, se beijar criancinhas e prometer o que não pode 10 cumprir, terá mais chances de se eleger.
A culpa não é só dele.
O pior doente é aquele que não quer se curar.
(Tulio Milman; Zero Hora, 27/09/2014 – texto adaptado)
A palavra “isso” refere-se a