Torre de Babel
RIO DE JANEIRO - Dias desses, desci do meL! 2 escritório, no largo do Machado, ia direto para a 3 garagem pegar o carro, mas me deu vontade de tomar 4 um sorvete na carrocinha bem em frente ao prédio 5 onde era antigamente o cinema São Luís.
6 Estava pagando o sorveteiro quando um 7 ônibus sUperlotado parou quase __ minha frente e vi 8 que havia confusão. Um velhinho, de bengala, queria 9 descer, mas havia muita gente na porta do ônibus, o 10 velhinho estava sendo espremido por outros 11 passageiros.
12 Ouvi uma voz, em tom de protesto: "Respeitem 13 o idoso!". O idoso em questão, brandindo _ bengala, 14 reclamou: "Não sou idoso. Sou velho!".
15 Taí. De uns tempos para cá, na onda cretina 16 do politicamente correto, até o vocabulário do _ 17 continua atrapalhando a comunicação social. Já não 18 se diz negro, mas afrodescendente. E os velhos 19 deixaram de ser velhos, tornaram-se idosos.
20 Dou razão ao velhinho do ônibus. Afinal, a 21 palavra "velho" não é palavrão nem ofensa. Por acaso, 22 naquele mesmo dia, fui confirmar isso com um verso 23 de Orummond num livro que tem uma dedicatória do 24 poeta. Ele aproveitou a remessa para me chamar de 25 "velho amigo do 'Correio da Manhã", o que muito me 26 honrou.
27 Aliás, tenho alguns livros que recebi de seus 28 autores sempre aludindo a uma "velha amizade" e até 29 mesmo a uma "velha admiração" de algum escriba 30 generoso. Lembro que, após um discurso apocalíptico 31 de Hitler, nos anos 1930, o papa de então, que era Pio 32 11, comentou: "Estamos perdendo o sentido das 33 palavras".
34 Pensando bem, a confusão da humanidade 35 começou na torre de Babel. Para castigar a audácia 36 dos homens que queriam chegar até o céu, o Senhor 37 fez com que cada um falasse um idioma.
38 O que era pedra para um, para outro era corda. 39 A torre ficou inacabada e até hoje os homens não se 40 entendem.
Autor: Carlos Heitor Cony (adaptado).
Na oração Estamos perdendo o sentido das palavras (/.32-33), os termos sublinhados exercem a função sintática de: