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816443 Ano: 2018
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: Câm. Indaiatuba-SP
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Leia o texto para responder a questão.
A última crônica
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea paratomar um café junto ao balcão. Na realidade, estou adiando omomento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado,de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitorescono cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher davida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto daconvivência, que a faz mais digna de ser vivida. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer naspalavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador. Sem mais nada para contar, curvoa cabeça e tomo meu café, enquanto o verso de um poetase repete na lembrança: “assim eu quereria o meu últimopoema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço entãoum último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos quemerecem uma crônica.
Ao fundo do botequim, um casal acaba de sentar-senuma das últimas mesas de mármore ao longo da parede deespelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de umamenininha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa. Trêsseres esquivos que compõem em torno à mesa a instituiçãotradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, quese preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiroque discretamente retirou do bolso, aborda o garçom e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. Este ouve,concentrado, o pedido do homem e depois se afasta paraatendê-lo. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolocom a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A menininha olha a garrafa de refrigerante e o pratinhoque o garçom deixou à sua frente. Vejo que os três, pai, mãee filha, obedecem em torno à mesa a um discreto ritual. Amãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho.Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve orefrigerante, o pai risca o fósforo e acende as velas. A menininha sopra com força, apagando as chamas. Imediatamentepõe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando numbalbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pravocê, parabéns pra você...”. A menininha agarra finalmenteo bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo.A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe afitinha no cabelo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. Opai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigode súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele seperturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça,mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse puracomo esse sorriso.
(Fernando Sabino. http//contobrasileiro.com.br. Adaptado)
Assinale a alternativa que indica, corretamente, entre parênteses, a circunstância presente na expressão destacada no trecho do texto.
 

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