Cresci em um casarão construído na primeira metade do século 20, cercado de árvores e bichos de todas as espécies. No quintal, tínhamos pé de manga, jambo, pitanga, graviola e caju, além de coqueiros, bananeiras, goiabeiras e uma rica variedade de ervas que usávamos para remediar qualquer tipo de mazela: boldo para indigestão e ressaca, erva-doce para cólica, capim-santo e camomila para aliviar o estresse e mastruz para combater inflamações.
Nunca conheci uma casa tão movimentada como a nossa! No terraço, deitada com a cabeça em uma enorme almofada azul, eu ficava à espreita dos lanches enquanto prestava atenção nas conversas dos adultos.
Das muitas “reminiscências” que os irmãos compartilhavam entre si, a minha avó comentava sobre a época da guerra, de quando estudava em um internato e precisava cobrir as janelas do seu quarto para não deixar escapar qualquer luminosidade, por medo de um possível bombardeio.
Ela e os irmãos também comentavam como o pai havia se estabelecido no Brasil. De tanto ouvir essas lembranças, eu costumava pensar que deveria existir algo em comum entre mim e o restante da família da minha mãe; qualquer coisa de imaterial que, ao tornar-se evidente a partir das nossas semelhanças físicas, fosse capaz de oferecer uma explicação para o interesse e o cuidado que nutríamos uns pelos outros.
A minha avó também recebia a visita das amigas do bairro e de gente antiga que havia trabalhado para ela e para o meu avô. Havia, igualmente, quem chegasse do interior para passar uma temporada conosco enquanto tratava da saúde.
Dessas pessoas eu ouvia histórias de hospital e de doenças terminais. [...] Algumas relatavam casos de curas milagrosas e pediam autorização para preparar infusões a partir das nossas plantas. Outras reportavam experiências religiosas e sobrenaturais. Na minha cabeça, todos esses relatos se misturavam e serviam para trazer o mundo e a história para dentro do nosso quintal, a emprestar uma dimensão humana ao que eu vislumbrava na natureza.
(Juliana de Albuquerque. www1.folha.uol.com.br. Adaptado).
Assinale a alternativa que apresenta um sinônimo da palavra “reminiscências” destacada no texto.