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1937053 Ano: 2020
Disciplina: Português
Banca: CONSULPAM
Orgão: Pref. Eusébio-CE
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FICAR CONSIGO

Graças à atual pandemia, estamos à beira de um confinamento estilo Decamerão – com a diferença de que as pessoas não vão se dedicar a contar histórias umas para as outras; a quarentena se dará diante de uma tela de computador ou smartphone: todos passivos, recebendo “conteúdo” sem parar. Entretanto, seria possível tomar este período como uma chance de aprendizado, e não de queixumes? Vamos experimentar.

Quem encara a perspectiva de um isolamento doméstico na forma de um martírio tem aí um sintoma grave. Se você não vive tranquilo em casa, pode achar preferível passar o dia na rua, com estranhos, a suportar o inferno familiar. Mas deveria ser um direito inalienável, a garantia de paz no próprio lar, e embora eu saiba que toda mudança envolve uma logística que ultrapassa a simples vontade, sem um primeiro passo não se avança nada.

Imagine que felicidade, acordar sabendo que entre suas paredes o dia será pacífico e harmonioso! Criar essa zona de conforto e proteção é também uma escolha; nunca vem de modo fácil, mas sempre recompensa. Sobretudo agora, quando todos devemos “viajar para dentro”, no sentido de que as novidades se encontrarão nos espaços internos, na casa e no espírito. É um exercício de atenção mais acurado, descobrir singularidades em local tão conhecido que se tornou opaco – mas as surpresas existem o tempo inteiro, se permitimos. Meditar, por exemplo, é encontrar em si um outro ritmo, um corpo mais denso, vibrante, energético.

Dançar, cozinhar, ouvir música… todas são formas de achar beleza e alegria. Que tal passar uma noite à luz de velas, para descobrir que a casa vira um quadro de Caravaggio ou La Tour? E desenhar, com o prazer que uma criança tem nisso (às vezes com igual qualidade técnica, não importa). Rever antigas fotografias. Arrumar aquela gaveta. Ler, escrever, óbvio!

Mas nem todo mundo está preparado para a própria companhia – e esse dado é o mais espantoso. Como assim, as pessoas preferem ruídos e confusão, para não ouvir a si mesmas? São dependentes da presença alheia, do sentimento de massa – porque, enquanto estiverem integradas num grupo, não correm o risco de olhar o seu abismo solitário. Mas essa epifania, ainda que dolorosa, é uma experiência necessária para que a gente se veja em profundidade. É o passo fundamental para se autoconhecer, contemplar a imagem íntima: o rosto cru da identidade.

Imagino que, para certas criaturas, seja intolerável a feiura do seu caráter, a mesquinhez das suas intenções diante da vida e do mundo. Por isso, depois de uma rápida espiada no monstro, elas voltam a trancá-lo num porão emocional e, para abafar seus rugidos, seguem uma compulsiva rotina de alienação. Podem levar anos nesse comportamento, convencidas de que o seu verdadeiro eu se calou ou morreu, e só restou o eu social, midiático, perfeito. Mas essa naturalmente não será nunca a verdade, conforme já nos ensinava Oscar Wilde, através de Dorian Gray.

Fonte: Blog Literatércia. Data da publicação: 22/03/2020.

O uso das aspas em recebendo "conteúdo" sem parar evidencia um propósito comunicativo do enunciador, o qual:

 

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