Texto alusivo às questões 6, 7 e 8
a maionese da dona nice
minha saudosa mãe trabalhava numa empresa metalúrgica durante a semana e ajudava meu pai na feira aos sábados e domingos. além disso ainda cuidava da casa que dava outro trabalhão danado, decerto não foi nada fácil sua vida
não sei como nem quando arrumou tempo pra fazer um curso de cabeleireira – na escola teruya, unidade lapa – e por muito tempo cortou o cabelo do meu pai e também o meu até o dia em que tesourou de leve minha orelha, devido ao alcoolismo que a consumiu pouco a pouco
aliás, pra ser bem justo, o que a consumiu de fato foi a doença que mais mata no mundo, a tristeza. o alcoolismo foi apenas mais um dos sintomas, porém me marcou tanto que até hoje eu só bebo quando estou bem, meu lado melancólico é cultivado na sobriedade
mas nem tudo é tristeza nessa vida, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa
na minha infância dia de festa era o dia em que ela preparava salada de maionese com batata sem maionese usando suas simples e sábias palavras
adorava sentar na sua frente para contemplar sua imagem batendo óleo com gema de ovo vinagre e mostarda num tigelão munida apenas com um garfo transformando líquido em maionese, antes de adicionar batata, cenoura, vagem e cheiro verde. quando sobrava algum, a vagem dava lugar ao camarão e aí a festa era completa. mais que alquimia, magia pura para aquele garoto que vos escreve agora tantos anos depois
há uns dias repórter de jornal famoso perguntou pra mim o que achava sobre o cenário de comida afetiva promovido por alguns bares e restaurantes na cidade onde moro
sinceramente não me lembro bem o que respondi, apenas que tentei não ser rude, afinal o repórter nem sempre é o real responsável por esse tipo de pauta
em gastronomia a única coisa que não se combate é lembrança afetiva, se o sujeito fala que o que interessa é o pudim cheio de furinho da sua avó é isso mesmo e fim de papo. nem eu nem tu temos o direito de intervir em seu mundo
de maneira que me revolta um bocado quando usam o termo comida afetiva para capetalizar em cima do assunto – já trabalhei num lugar assim onde aliás me pagavam muito pouco e me dispensaram por email (!!!) sem oferecer um mísero centavo pelo distrato além de não pagarem o último mês – em questão
assim como pão com mortadela é comida simples e gostosa que não deve ser romantizada. a imbecilidade foodie de tuchar 400 gramas de embutido no pão alimentaria tranquilamente uma família no lanche de uma bela tarde de domingo
a diversão da dona nice nos últimos meses de vida – passados num tristíssimo quarto de hospital na avenida pompéia – era repassar sua receita de salada de maionese a quem a visitasse e claro que ela estará no meu próximo livro, dedicado a receitas crônicas
entes queridos só vão embora quando os deixamos morrer os apagando de nossas memórias
mas e tu? tem alguma memória gastronômica afetiva que mexe contigo?
Autor: Júlio Bernardo
Fonte: http://notasdequinta.dojotabe.com/a-maionese-da-dona-nice/
Qual a crítica do autor ao sanduíche de mortadela de 400 gramas?