DIFERENTEMENTE DOS AMERICANOS DO NORTE
Caetano Veloso – O mundo não é chato
Nosso povo, diferentemente dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode atribuir-se ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração. O Estado é impessoal: nós só concebemos relações pessoais. Por isso, para nós, roubar dinheiros públicos não é um crime. Somos indivíduos, não cidadãos. (....) Os filmes elaborados em Hollywood repetidamente propõem que se admire o caso de um homem (geralmente um jornalista) que procura a amizade de um criminoso para depois entregá-lo à polícia: nós, que temos a paixão da amizade e consideramos a polícia uma máfia, sentimos que esse “herói” dos filmes americanos é um incompreensível canalha. Sentimos com Don Quixote que “lá se haja cada um com seu pecado” e que “não é bom que os homens honrados sejam verdugos dos outros homens”.
Essas palavras que acabei de pronunciar podem parecer referir-se a nós, brasileiros. E não tenho dúvida de que, se ditas hoje por um brasileiro diante de brasileiros, podem causar – a despeito da encantadora elegância com que estão dispostas, ou principalmente por causa dela – certo mal-estar. Na verdade, são palavras de uma argumentação sobre o caráter argentino a que Jorge Luis Borges recorreu mais de uma vez em seus impecáveis escritos. O fato de que tal argumentação poderia provocar certo constrangimento mesmo entre os argentinos de 1930 – quando suponho que ela foi pela primeira vez levada a público – não parece ter passado despercebido do próprio Borges que, numa nota de pé de página completando a observação sobre a licença tácita de roubar dinheiros públicos, faz a ressalva: “Comprovo um fato, não o justifico ou desculpo”.
Mas, se decidi abrir esta conversa repetindo aquelas palavras de Borges, não foi porque quisesse criar na sala esse mal-estar – embora, indubitavelmente, ele me sirva para estabelecer o tipo de comunicação desejado: se o fiz foi sobretudo porque me interessa ressaltar, antes de mais nada, o risco que todos corremos – todos nós que falamos em nome de países perdedores da História – de tomar as mazelas decorrentes do subdesenvolvimento por quase-virtudes idiossincráticas de nossas nacionalidades.
A nota de pé de página de Borges a que se refere o texto teve a função de: