A grande maioria das espécies que habitam nosso planeta se comunicam de alguma forma. Mas não há nada que se pareça com a linguagem humana, que é bastante difícil de definir, já que apresenta, por exemplo, expressões transitórias que não deixam rastros, nunca é inerte, muda com o tempo, é infinitamente flexível e globalmente presente. O fato é que a complexidade da nossa linguagem, independentemente do tipo que usamos, nos torna únicos: permite-nos interagir com os nossos pares e falar sobre o passado, presente ou futuro, e transmitir conhecimento.
No entanto, apesar de ser nossa ferramenta mais preciosa — seja escrita, oral, por sinais, assobios ou em qualquer uma de suas formas —, ainda sabemos muito pouco sobre como a linguagem dos seres humanos surgiu. “Sabemos muito mais sobre o Big Bang da física do que sobre o Big Bang humano”, diz Morten Christiansen, professor de psicologia e codiretor do Programa de Ciências Cognitivas da Universidade de Cornell, em Nova York.
Acredita-se que a linguagem tenha pelo menos 50 mil anos, mas a maioria dos linguistas crê que seja bem mais antiga — alguns estimam que possa ter até meio milhão de anos.
Também é possível que, apesar da diversidade de idiomas existentes no mundo, todos descendam de um antepassado comum. Isso é respaldado em parte pela evolução biológica. De acordo com nossa genética, viemos de uma população relativamente pequena na África. Embora outras línguas possam ter surgido fora desse grupo, as que conhecemos agora provavelmente descendem de modificações da usada por aquele grupo.
Os fósseis dos nossos ancestrais nos dão algumas pistas de quando começamos a falar. “Respiramos com enorme controle para emitir sons”, afirma Robert Foley, antropólogo da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Para fazer isso, devemos ter controle muscular de nosso diafragma, que tem muito mais nervos do que o diafragma de nossos parentes mais próximos, os macacos — que não falam. Todos esses nervos fazem com que nossa medula espinhal seja um pouco mais espessa nessa área — e a coluna vertebral, um pouco mais larga. Os neandertais de cerca de 600 mil anos atrás têm essa expansão na coluna. Mas, ao retroceder um milhão de anos, observamos que essa expansão não existe no Homo erectus, espécie anterior de humano primitivo.
Segundo Foley, isso nos dá uma pista de quando os humanos começaram a usar a linguagem.
Há um certo consenso na comunidade científica a respeito de alguns passos preliminares necessários para o surgimento da linguagem.
Especificamente, fala-se em “pré-adaptações”, conforme indica o estudo “Evolução da linguagem: consensos e controvérsias”, publicado pela revista Trends in Cognitive Science, em 2003.
Essas pré-adaptações somam-se às questões físicas mencionadas anteriormente e apontam, por exemplo, para a capacidade de seguir a direção do olhar ou dirigir a atenção de outra pessoa para um objeto específico para conseguir uma comunicação bem-sucedida.
Outras pré-adaptações cognitivas podem ter pavimentado o caminho para a linguagem, incluindo-se a capacidade para o aprendizado hierárquico de informação apresentada sequencialmente e o aumento da memória para sequências de sons, ambos importantes para o aprendizado e processamento da linguagem, indicam os especialistas no estudo.
Há várias teorias acerca de como a linguagem da nossa espécie se originou. Mas nenhuma ainda é conclusiva. “Nossas chances de saber a verdadeira origem da linguagem são relativamente baixas”, afirma Morten Christiansen.
Analía Llorente. Por que a origem da linguagem ainda é uma incógnita para a ciência. Hay Festival Digital Colombia@BBC Mundo, 14/3/2021. Internet: <bbc.com> (com adaptações).
Considerando o texto e seus aspectos linguísticos, julgue o item a seguir.
Estariam mantidas a correção gramatical e a coerência das ideias do texto caso se suprimisse a vírgula empregada após o termo “humana”.