Adeus, lentilha
Sem a pressão de estar na praia certa e na festa exata, livre de superstições e dos fogos à meia-noite, o Réveillon longe do Brasil trouxe uma certeza: é preciso criar a cada segundo o sentido dos dias. Para nós, brasileiros, passar o Réveillon longe do calor é, à primeira sensação, começar o ano com o pé direito em terra de canhoto.
Para variar e virar a casaca de vez, encarei de frente o dia 31 a curta distância da tímida Barcelona de dezembro – é na capital da Catalunha que vivo atualmente –, sem o relento tropical e o arder das multidões em chamas nas praias do Rio ou da Bahia. Perto do mar (afinal, cariocas e andorinhas nunca voam de costas para o Atlântico) para saudar Iemanjá, mas sem a menor chance de pular as sete ondas e congelar para sempre em 2016, graças a um desejo de sopro familiar passei a data em Lisboa, onde os abraços são mais acalorados, a comida faz as vezes de beijo de avó e a alma cá dentro se acalma sob o sol de um inverno generoso.
A “passagem d’ano” na terrinha peca pela falta de excessos, mas é justamente na ausência de rompantes que se rompe com o passado sem grandes expectativas para o futuro, o que é libertador e alivia. Sem as mandingas que, dando resultados ou não, repetimos a cada virada com a mesma devoção que os portugueses têm na festa de Santo Antônio, e os catalães, no dia de São João (quando, no solstício de verão, saem pelas ruas vestidos de branco) celebrei a chegada de 2017 à moda da casa. Ou quase: por mais que o preto seja o traje uníssono em Portugal, me dei a licença poética e mística de quebrar o protocolo ao vestir branco da cintura para cima (não quis violar a “regra” de todo, afinal nunca se sabe o dia primeiro de amanhã) e um par de meias novas da cor sugerida pelas astrólogas sem medo de parecer um alienígena. Para eles era evidente que eu não era dali; para mim, era uma dúvida se eu deveria estar ali. Ficou claro no look, nas gracinhas das dancinhas e no incessante refil das tacinhas que eu era o convidado trapalhão. E estava na minha cara a interrogação, cara de quem não viu uma lentilha sobre a mesa, cara de estranho no ninho que não viu o ninho de ovos envolvendo o pernil... cara de quem pergunta: “cadê as gemas e o açúcar que vocês comem o ano inteiro?” E nem o pernil havia!!! Sobreviver a um Réveillon sem pinta de Réveillon parecia tarefa impossível (a prova de fogo seria a falta de fogos) e eu precisava de um sinal qualquer que fizesse meus olhos enxergarem que se tratava de uma festa de Ano-Novo. E nada. Aparentemente nada mudaria ao meu redor de 31 de dezembro para 1º de janeiro.
Ao mesmo tempo, estar livre da obrigação de ser feliz da porta (e do post) para fora, de estar na praia certa, na festa exata, no look preciso, no bronze ideal me soou perfeito para entrar 2017 sem a esperança travestida de ilusão, o otimismo disfarçado de alienação. A passagem suavemente se fez sem o rito, a quebra. E o Day after tornou-se um dia a mais, o primeiro do ano novo, mas com jeito da continuação de uma história sem pausa, sem pressa. Assim, no minuto 1 de 1º de janeiro, ficou entendido que é preciso criar a cada segundo o sentido dos dias. E num piscar de olhos e no passar ligeiro do tempo, eis que o ano-bom foi anunciado com a euforia de uma notícia extraordinária. Entre brindes e os adoráveis “beijinhos grandes” que os “tugas” tanto trocam e nos tocam, dei a noite por encerrada sem precisar explicar em português claro por que 2016 não vai deixar saudade.
(Débora ChodiK. Vougue. p. 122.)
O texto “Adeus, lentilha”, tem as características de uma crônica como a maioria das pessoas a veem hoje. Desde que a crônica surgiu como relato de acontecimentos históricos, que obedeciam à passagem do tempo, até os dias atuais, esse gênero discursivo sofreu inúmeras mudanças, principalmente a partir do século XIX. Hoje, os estudiosos reconhecem uma diversidade de tipos de crônica (a narrativa, a descritiva, a jornalística, a humorística, etc.). Não é, porém, o assunto o elemento decisivo na distinção de uma crônica, mas a linguagem empregada: é um texto curto, de linguagem simples, leve, agradável, que normalmente tem um tom de humor.
Atente ao que se diz sobre o primeiro parágrafo da crônica.
I. Funciona como uma espécie de apresentação do que vai ser explorado, trazendo, portando, estrutura de introdução.
II. Esse parágrafo constrói-se de maneira inusitada: traz características de introdução, mas também um elemento comum à conclusão, que é a solução do problema.
III. Cria um clima de expectativa para o leitor.
Está correto o que se diz em