Magna Concursos
2529277 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: UFPel
Orgão: UFPel
Como a televisão decide o que você pensa, o que você quer e o que você faz
Márcia Tíburi
Enunciado 3139581-1
Digamos que você trabalhe demais e não tenha tempo justamente para cuidar do tempo que sobra, se é que sobra algum tempo. Então você deixa que uma empresa cuide disso para você. Se você já se aposentou ou não tem trabalho, pode parecer difícil usar o tempo com outras coisas e você também aceita os serviços da empresa.
Como você vive em uma sociedade que valoriza a informação, e a empresa lhe dá justamente isso, parece lógico que o que ela fornece é uma coisa boa em troca de uma coisa meio chata como é a propaganda. Mas parece uma troca justa e você pensa que não tem por que ver um problema nisso.
Na forma de notícias, a informação é algo que serve para você saber em que mundo está, saber o que está acontecendo e, evidentemente, não ser ingênuo. Você pensa: não parece lógico que alguém use informação para lhe enganar e lhe tornar ingênuo. Isso não faria sentido e você se entrega de corpo e alma ao que tem pela frente. No meio disso tudo, você acredita e confia mesmo no que recebe, afinal se você não está enganando ninguém, ninguém teria por que enganar você.
E como você é uma pessoa confiante, você também confia na justiça e sabe que propaganda enganosa pode dar cadeia e segue vendo tudo de bom que o aparelho que você comprou lhe oferece de graça. Quer dizer, é bom lembrar que não é bem de graça, tem aquela troca, mas isso não vem ao caso agora, pois tudo parece muito justo.
A tecnologia muda de tempos em tempos, o aparelho fica ultrapassado e você precisa comprar um novo. Você nem queria esse aparelho último tipo, assim como você não quer as coisas que ele mostra, mas você passa a usar porque todo mundo está usando. Ficar longe do aparelho é o que ninguém quer. Ficar desatualizado diante dos colegas e familiares também pega mal. Assim você que não anda conversando nada muito interessante com ninguém, sente que ainda faz parte de uma comunidade que agora é chamada de audiência.
Você parou de falar com as pessoas, perdeu a noção dos amigos e dos familiares, as pessoas só perguntam se você viu a novela. É claro que você assistiu a tudo, perdeu alguns capítulos dormindo, pois não era tão interessante assim, mas não tem problema porque o seu mundo emocional está completamente preenchido com as alegrias e tristezas das personagens.
A sua vida moral, ética e política está totalmente controlada, já não dá mais trabalho. O aparelho que você comprou garantiu todas as suas ideias por meio dos noticiários e criou um verdadeiro estilo de vida para você. Você está convencido de que a vida não pode ser diferente.
[...]
Antigamente, antes de tudo isso, você pensava que a vida poderia ser diferente. Com o tempo você esqueceu essa pergunta e, se alguém ousa fazê-la hoje, você se irrita muito e é você que aponta essa pessoa como uma alienada e uma chata. Você fica muito triste por pensar assim, mas, como o ressentimento incomoda muito, você deixa por isso mesmo.
Você vê as novelas, os filmes, os programas de culinária, humor, entrevistas, está tudo tão bem feito, tudo tão bonito que você nem precisa de mais nada. Você se identifica com tudo aquilo que é mostrado. Até parece que não existe outro jeito de viver. Claro que existe, você pensa, mas daria muito trabalho. Então você vê as tragédias que aparecem e se autocompensa pensando que você não faz parte delas. Alguém diz a você que o mundo é terrível, mas que ele está do seu lado e não vai deixar você ser enganado. Isso porque você confia tanto na cabeça que aparece falando na sua frente, aquela que lhe dá as informações de graça em troca das propagandas que você vê e das coisas que você compra, que ele só pode ser um trabalhador honesto como você, que nunca lhe faria mal.
Essa cabeça falante está só mostrando a vida como ela é, você entendeu. Como ele tem uma audiência ao redor, da qual você faz parte porque quer, afinal, você escolheu tudo isso, você não pode se queixar de nada. E, como deixar de assisti-la seria ridículo diante dos seus colegas e familiares, você segue firme e forte usando agora o controle remoto para escolher entre os trezentos generosos canais de programação que preenchem o vazio mental, o vazio das emoções, e o vazio da ação que você poderia sentir. Esses canais lhe dão a impagável sensação de poder de escolha. Na verdade eles não têm muita graça, tanto que você troca de canal a cada segundo, mas você não imagina que possa haver algo além disso para ver, lá fora, na vida.
[...]
Quem sabe um dia, seja você que possa estar ali aparecendo e você finalmente exista como aquelas pessoas todas. Você chega a fantasiar uma coisa dessas enquanto a inveja – essa fixação no que é visível – se instaura em sua intimidade. Enquanto isso, basta tentar pensar como elas, sentir o que elas sentem, fazer o que elas fazem. Eles decidirão o que você vê pensando que tem todo o direito, afinal de contas, você terceirizou o seu olhar e com ele o pensamento, a emoção e a ação.
Elas decidirão o que você vê, o que você compra, o deus no qual você deve crer, as músicas que você vai ouvir. Decidirão o seu voto e o regime de governo que vai reger a sua vida. Vão lhe informar de tudo o que eles acham importante ou conveniente para controlar a sua vida tirando de você a sensação angustiante da liberdade. Só não vão lhe informar que você ficou cego. E que eles deveriam pagar uma grande indenização por anos e anos de assédio cognitivo e moral. Os danos éticos e políticos são irreparáveis. Então, quando você perceber que implantaram no seu corpo um olho de vidro, que essa prótese não vai resolver o seu problema de visão, mas vai iludir a todos de que você ainda vê, você não conseguirá mais saber que está diante da tela do aparelho. Pensará que é a realidade.
Morto há tempos diante da tela, transformado em um zumbi que não pensa, não sente e não age em nome de mais nada que não seja a ordem teleguiada recebida, você será chamado de “vidiota” por alguém que, por algum motivo, ficou longe disso tudo. Mas porque já não consegue entender nada, você parte para cima dele com a única coisa que restou na sua vida subjetiva, ódio barato e agressividade sem fim.
Disponível em: <http://revistacult.uol.com.br/home/2016/03/como-a-televisao-decide-o-que-voce-pensa-o-que-voce-quer-e-o-que-voce-faz/> Acesso em: 06 abr. 2016.
Em “Com o tempo você esqueceu essa pergunta e, se alguém ousa fazê-la hoje, você se irrita muito e é você que aponta essa pessoa como uma alienada e uma chata.” (8º parágrafo), os termos destacados são classificados sintaticamente como
 

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