O texto a seguir é referência para a questão. Trata-se do editorial publicado pelo jornal Folha de S. Paulo no dia da comemoração dos 500 anos de descobrimento do Brasil.
O quinto centenário
Há 500 anos, a nau capitânia do navegador português Pedro Álvares Cabral aportava na região da atual cidade de Porto Seguro, Bahia. Decerto tratou-se do início de uma história relevante, a história do Brasil branco, porque existe uma outra para ser contada a respeito dos vários povos indígenas que aqui habitavam desde remotos tempos.
Na época estavam os portugueses mais interessados nos lucros do comércio ultramarino de especiarias. Dominavam uma rota alternativa de comércio, contornando o Cabo da Boa Esperança (extremo sul da África) para chegar ao Oriente. Não foi à toa que a expedição de Cabral permaneceu nas terras brasileiras apenas alguns dias, para tomar posse efetiva de uma porção de terras que, pelo Tratado de Tordesilhas, pertencia aos portugueses. Foi apenas uma parada em uma viagem que tinha como destino Calicute, na Índia. [...]
Mas não é preciso cobrar rigor historiográfico das comemorações que ocorrem na data de hoje sobre os 500 anos da chegada da frota do navegador português. Como a maioria das festas cívicas do gênero, ela fala muito mais do presente que do passado. E é esse presente histórico, o Brasil de 22 de abril do ano 2000, que é particularmente interessante. Imagine-se o que seria uma comemoração dessas no regime militar ou no Estado Novo de Getúlio Vargas. Paradas nas ruas, garotos uniformizados cantando o “hino do descobrimento”, livros editados para louvar a beleza e as riquezas do Brasil. Enfim, uma sombria demonstração de força do governo de plantão, de tipo parecido com o que praticavam os regimes soviéticos ou com o que ocorre na China.
Em oposição a isso, o próprio aspecto de precária organização, com as devidas exceções, e mesmo de pouca importância dedicada pelo governo aos festejos – comandados por um inexpressivo ministro do Turismo – não deixa de ter seu lado positivo. Os governantes parecem estar menos interessados em fazer valer pela força ou pela máquina da propaganda oficial a sua versão da história. A esse respeito, há um visível amadurecimento no comportamento dos mandatários, que deve ser creditado quase exclusivamente ao fato de se ter hoje uma democracia razoavelmente estabelecida neste país.
Também a democracia permite que estejam em Porto Seguro representantes de forças sociais que contestam vivamente a versão oficial para os 500 anos. Afinal, o que deveriam comemorar os descendentes dos povos indígenas, que foram sendo destruídos enquanto avançava a colonização? Por que engrossariam o coro oficial também os negros, cujos antepassados foram escravizados ao longo de 300 anos? Em nome de que festejariam os despossuídos? Essas organizações estão em Porto Seguro colocando uma pitada de pimenta nos festejos e é absolutamente lícito que possam dar o seu recado sem constrangimento. [...] O dissenso, quando praticado dentro do que requer a democracia, sem violência, é sempre saudável para fazer com que os governantes ouçam mais a voz das ruas.
(Folha de S. Paulo, 22 abr. 2000.)
Sobre o descobrimento do Brasil, considere as seguintes afirmativas:
1. Os portugueses que aportaram em Porto Seguro fizeram apenas uma parada de poucos dias no seu trajeto da viagem comercial para a Índia.
2. A história iniciada com o descobrimento das terras brasileiras por Pedro Álvares Cabral é apenas uma das histórias do país.
3. O governo não foi capaz de organizar paradas, editar livros e patrocinar a composição de hinos comemorativos relacionados a esse evento.
4. Grupos de índios e negros se organizaram para questionar as comemorações dos 500 anos em Porto Seguro.
5. A expedição de Cabral parou em Porto Seguro apenas para tomar posse efetiva das terras que o Tratado de Tordesilhas destinava a Portugal.
O texto usa como argumentos para reduzir a importância do fato: