Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Em minutos espalhara-se a notícia: uma baleia na praia do Leme e outra na praia do Leblon haviam surgido na arrebentação de onde tinham tentado sair sem no entanto poder voltar. (…)
Não fui ver a baleia que estava a bem dizer à porta de minha casa a morrer. Morte, eu te odeio.
Enquanto isso as notícias misturadas com lendas corriam pela cidade do Leme. Uns diziam que a baleia do Leblon ainda não morrera mas que sua carne retalhada em vida era vendida por quilos pois carne de baleia era ótimo de se comer, e era barato, era isso que corria pela cidade do Leme. E eu pensei: maldito seja aquele que a comerá por curiosidade, só perdoarei quem tem fome, aquela fome antiga dos pobres.
Outros, no limiar do horror, contavam que também a baleia do Leme, embora ainda viva e arfante, tinha seus quilos cortados para serem vendidos. Como acreditar que não se espera nem a morte para um ser comer outro ser? Não quero acreditar que alguém desrespeite tanto a vida e a morte, nossa criação humana, e que coma vorazmente, só por ser uma iguaria, aquilo que ainda agoniza, só porque é mais barato, só porque a fome humana é grande, só porque na verdade somos tão ferozes como um animal feroz, só porque queremos comer daquela montanha de inocência que é uma baleia, assim como comemos a inocência cantante de um pássaro. Eu ia dizer agora com horror: a viver desse modo, prefiro a morte.
Clarice Lispector. Morte de uma baleia.
In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
A partir do fragmento de texto precedente, de Clarice Lispector, julgue o item seguinte, considerando as características do Modernismo brasileiro.
A consciência ecológica da personagem evidencia-se com sua responsabilidade quanto aos seres vivos, confirmada na caracterização dos pássaros como inocentes.