Como não há literatura sem fuga ao real, e tentativas de transcendê-lo pela imaginação, os escritores [no Brasil do século XVIII] se sentiram frequentemente tolhidos no voo, prejudicados no exercício da fantasia pelo peso do sentimento de missão, que acarretava a obrigação tácita de descrever a realidade imediata, ou exprimir determinados sentimentos de alcance geral. Este nacionalismo infuso contribuiu para certa renúncia à imaginação ou certa incapacidade de aplicá-la devidamente à representação do real, resolvendo-se, por vezes, na coexistência de realismo e fantasia, documento e devaneio, na obra de um mesmo autor, como José de Alencar. Por outro lado, favoreceu a expressão de um conteúdo humano, bem significativo dos estados de espírito duma sociedade que se estruturava em bases modernas. (...) Se não decorreu daí realismo no alto sentido, decorreu certo imediatismo, que, não raro, confunde as letras com o padrão jornalístico; uma bateria de fogo rasante, cortando baixo as flores mais espigadas da imaginação. Não espanta que os autores brasileiros tenham pouco da gratuidade que dá asas à obra de arte; e, ao contrário, muito da fidelidade documentária ou sentimental, que vincula à experiência bruta. Aliás, a coragem ou espontaneidade do gratuito é prova de amadurecimento, no indivíduo e na civilização; aos povos jovens e aos moços, parece traição e fraqueza.
Antonio Candido. Formação da literatura brasileira – momentos decisivos:
1750-1880. Rio de janeiro: Ouro sobre Azul; São Paulo: FAPESP, 2009, p.28-29.
Tendo como referência o texto de Antonio Candido acerca da produção literária brasileira no século XVIII — Arcadismo e Romantismo —, julgue o item.
A exigência de descrição da realidade nacional de forma imediata aproximava a literatura brasileira, nos momentos iniciais de sua formação, da escrita jornalística e documentária.