TEXTO 03
LUSOFONIA
Escrevo um poema sobre a rapariga que estásentada
no café, em frente da chávena de café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não possoescrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, apalavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal.
Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem docafé,
a menina do café, para que a reputação da pobrerapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café delisboa, não
fique estragada para sempre quando este poemaatravessar o
atlântico para desembarcar no rio de janeiro. E istotudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, queé
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa queeu queria
era escrever um poema sobre a rapariga do
café. A solução, então, é mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café ondenenhuma
rapariga se pode sentar à mesa
porque só servem café ao balcão.
(JÚDICE, N. Matéria do Poema. Lisboa: D. Quixote,2008.)
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Professor do Ensino Fundamental - Português
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