OBRAS RECENTES COMO “BACURAU” DERRUBAM MITO DO “BRASIL PAZ E AMOR”
País sempre deu certo para bandeirantes, coronéis e banqueiros, enquanto população afunda, diz autor
País sempre deu certo para bandeirantes, coronéis e banqueiros, enquanto população afunda, diz autor
Luiz Antônio Simas tem um texto brilhante sobre a trajetória do Brasil. Segundo ele, a questão não é que o país está “dando errado” agora. O Brasil sempre deu certo. Certo demais. Deu certo para bandeirantes, coronéis, latifundiários. E dá certo para os banqueiros, enquanto a maioria da população afunda.
Como mostrou o especial da Folha Desigualdade Global, apenas o Qatar — emirado árabe absolutista, governado pela mesma dinastia desde meados do século 19 — supera o Brasil em concentração de renda no 1% mais rico. O Brasil é um tremendo sucesso. Para quebrar essa lógica, precisa “dar errado”. Como no mapa invertido de Joaquín Torres García, virar de ponta-cabeça.

Walter Benjamin diz que a questão não é fazer a história avançar “mais depressa”, mas sim interromper a cega locomotiva do progresso. Nestas terras, progresso é sangue. Um acúmulo de catástrofes: colonização e extermínio indígena, diáspora, escravização e ditaduras nunca devidamente enterradas. Sempre retornam e contaminam o presente.
Se dois seguranças se sentem autorizados a torturar um jovem negro de 17 anos, não é só o horror da violência concreta que vem à superfície. É também uma manifestação sintomática do racismo estrutural.
A exposição “Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964”, que esteve em cartaz no Instituto Moreira Salles em São Paulo, é um dos trabalhos que ajudam a desconstruir o mito do “Brasil paz e amor”: mostra que todo levante resultou em desproporcional repressão institucional, aliada aos interesses das elites.
É um trabalho que dialoga com outros três recentes: o desfile da Mangueira, vencedor do Carnaval 2019; a série documental “Guerras do Brasil.doc”, disponível na Netflix; e a obra do artista plástico Jaime Lauriano.
Mikhail Bakhtin teorizou o Carnaval como inversão da estrutura social, através da ironia e da sátira. É assim no desfile da Mangueira: as monumentais entidades históricas (Cabral e os marechais de faixa e bigode), quando saltam dos quadros para sambar na Sapucaí, são pomposos anões.
Entre tantos elementos, o destaque é o cortejo dos bandeirantes. Quando avançam, deixam para trás um rastro de cadáveres. O ícone da bravura paulista é corroído pela imagem da caveira.
No primeiro episódio de “Guerras do Brasil.doc”, o líder indígena Ailton Krenak diz: “O Brasil é uma invenção. Ele nasce exatamente da invasão. Inicialmente pelos portugueses, depois continuada pelos holandeses, e depois continuada pelos franceses, num moto sem parar onde as invasões nunca tiveram fim. Nós estamos sendo invadidos agora”. Se pensarmos nos ataques recentes a lideranças indígenas na Amazônia, nos incêndios, esse “agora” de Krenak é um grito de socorro.
Colonialismo na América Latina e seus reflexos traumáticos orientam o trabalho do artista plástico Jaime Lauriano. Em “Brinquedo de Furar Moletom”, exposto no MAC Niterói no ano passado, Lauriano usa objetos de metal sobre um pequeno muro de tijolos coloniais: três caravelas, um tanque de guerra, um avião e 27 miniaturas de carros da polícia, construídos com restos de cartuchos usados pela PM.
Já em “Quem Não Reagiu Está Vivo”, o artista se apropria de uma declaração do ex-governador paulista Geraldo Alckmin e relê a história do Brasil de modo invertido: uma história de massacres.
“Na era das catástrofes”, afirma Márcio Seligmann-Silva, “a arte passa a ser pensada como arquivo histórico (…) inconsciente”. Ou seja, os artefatos culturais — livros, cinema etc. — são um repositório de traumas históricos que sempre retornam, são “memória do sofrimento acumulado”, mesmo quando há happy end.
O final feliz do filme “Bacurau”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, revela o horizonte que nos esmaga.
No isolado povoado de Bacurau há um museu. “Vocês vieram visitar o museu?”, é uma pergunta constante dos moradores aos forasteiros do Sudeste. Forasteiros que se revelam traidores, preparando o extermínio turístico-esportivo que um bando de americanos aficionados por armas e diversão deseja perpetrar.
Falou-se muito em western, mas talvez uma boa referência para o filme seja “O Alvo” (1993), com um inconfundível Jean-Claude Van Damme de mullets. Dirigido por John Woo, o longa retrata um grupo de sádicos que usa mendigos e veteranos de guerra como presas de uma caçada humana. Uma diferença entre os filmes é que, em “Bacurau”, não há protagonista. Ou talvez exista um: o museu, espaço coletivo, de tempos sobrepostos, onde se honram os mortos de outrora.
O Museu Histórico de Bacurau se parece, muito, com o Museu Histórico de Canudos. Da fachada ao pequeno altar com rifles, o prédio é um arquivo de lutas ancestrais, onde cada objeto material, como diria Proust, guarda um espírito, pronto a despertar. E desperta: arranca do esquecimento a tradição dos oprimidos, no momento de um derradeiro perigo.
“Os autênticos artistas do presente”, afirma Adorno, “são aqueles em cujas obras ressoa o terror mais radical”. No nosso país de privilégios, “o terror mais radical” é que toda uma legião de oprimidos vire o mapa de cabeça para baixo. Como Joaquín Torres García. Como o povo de “Bacurau”.
ALMEIDA, Marcos Vinicius. Obras recentes como
“Bacurau” derrubam mito do “Brasil paz e amor”. Folha de São Paulo, setembro 2019.
A partir do exposto no texto, é correto inferir que a intenção predominante do autor é: