Texto 1
Produção Interdisciplinar de Conhecimento Científico no Brasil: temas ambientais
Tatiana de P. A. Maranhão¹
Resumo: A importância dos temas ambientais parece ser compartilhada por diversos discursos políticos internacionais. Apesar desse aparente consenso, países adotam estratégias diferentes de investimentos no desenvolvimento científico e tecnológico, produzido de modo desigual e concentrado. Ademais, questões ambientais constituem objetos de pesquisa extremamente complexos, que necessitam de pesquisas interdisciplinares. No Brasil, houve uma reorientação temática dos investimentos em P&D, o que poderia incrementar a pesquisa interdisciplinar, mas que, de fato, demonstra a dificuldade de se superar a divisão de campos disciplinares. Analisou-se que o número de grupos de pesquisa, linhas de pesquisa, pesquisadores e produção científica cresceu de modo significativo nos censos de 2000 a 2006. Apesar desse crescimento na pesquisa, manteve-se uma concentração temática nos campos disciplinares: as Ciências Humanas e as Ciências Sociais Aplicadas concentraram-se em pesquisas sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável, enquanto as Biológicas, Agrárias e Exatas dedicaram-se majoritariamente à biodiversidade e aos recursos naturais.
Palavras-chave: interdisciplinaridade; produção interdisciplinar de conhecimento; desenvolvimento científico e tecnológico; pesquisa científica.
1. Introdução
Na contemporaneidade de um planeta cujo processo civilizador caracteriza-se por formar redes de interdependências dinâmicas e desiguais entre as sociedades dos indivíduos (Elias, 1994a: 112; 1994b: 264), diversos problemas interpenetram as fronteiras reais das nações e das grandes áreas do conhecimento científico. Problemas mundiais, como a desigualdade socioeconômica e a degradação ambiental (Shiva, 2004: 163-164; Latour, 2002: 15-16), transformados em problemas científicos, transcendem os limites circunscritos pela organização disciplinar do conhecimento (Bursztyn & Sayago, 2006: 104).
Na contemporaneidade de um planeta cujo processo civilizador caracteriza-se por formar redes de interdependências dinâmicas e desiguais entre as sociedades dos indivíduos (Elias, 1994a: 112; 1994b: 264), diversos problemas interpenetram as fronteiras reais das nações e das grandes áreas do conhecimento científico. Problemas mundiais, como a desigualdade socioeconômica e a degradação ambiental (Shiva, 2004: 163-164; Latour, 2002: 15-16), transformados em problemas científicos, transcendem os limites circunscritos pela organização disciplinar do conhecimento (Bursztyn & Sayago, 2006: 104).
Ocorre que, ao longo da história, com a divisão e a especialização do trabalho (Herrera, 1984: 60-67; Bursztyn, 2005: 59-76) e com a divisão dos saberes em disciplinas baseadas numa lógica racionalista (Bartholo, 1984:71), houve uma ênfase na separação do ser humano em relação à natureza, na medida em que este pretendeu controlá-la e transformá-la por meio da ciência, da política, da economia. Atualmente, as externalidades, os riscos e a incerteza de um contexto de relações mundializadas, num tempo-espaço que ocorre em fluxos dinâmicos e velozes (Castells, 2005; Beck, Giddens & Lash, 1997; Beck, 2002), reduzem a crença humana acerca das possibilidades de ação e de compreensão sobre a Natureza, assim como se reduz a capacidade desta de renovação.
A prática interdisciplinar de pesquisa ocorre em meio a diversos contextos no âmbito da história e consiste num empreendimento coletivo (e controverso) para conhecer as realidades². Tal contexto, caracterizado pela complexidade (Baumgarten, 2006; Floriani, 2006; Zellmer et al, 2006), indica a necessidade de novas explicações científicas multidimensionais de médio e longo alcance (Baumgarten, 2006: 16-17), principalmente quando se investigam objetos complexos, que escapam às explicações de uma única disciplina (Floriani, 2006: 72).
Diante dos desafios da contemporaneidade, o presente trabalho pretende analisar certos aspectos da pesquisa interdisciplinar (Sobral, 2006a; 2006b), com base em informações sobre programas de pós-graduação interdisciplinares e dados dos quatro Censos realizados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, em 2000, 2002, 2004 e 2006, sobre o diretório dos Grupos de Pesquisa. Uma vez que saberes disciplinares isolados são insuficientes para a análise (e solução) de problemas ambientais complexos, há que se enfrentar desafios e transcender os limites do campo científico e da organização disciplinar do conhecimento. Portanto, quais são os significados da interdisciplinaridade na produção do conhecimento científico contemporâneo?
2. Significados da interdisciplinaridade
A concepção utilizada pelo presente trabalho está de acordo com a definição esta-belecida por Lélé & Norgaard:
A concepção utilizada pelo presente trabalho está de acordo com a definição esta-belecida por Lélé & Norgaard:
[...] o termo interdisciplinaridade pode ser usado para descrever todos os tipos de cruzamentos entre as disciplinas, desfazendo as sutis diferenças entre multi-, inter- e trans-, levantadas em discussões mais elaboradas sobre o assunto (2005: 967).
Tal posicionamento considera que disciplinas são artefatos acadêmico-administrativos e que, para analisar problemas complexos como a questão ambiental, é preciso pensar nas comunidades científicas sem se restringir aos saberes compartimentalizados em disciplinas curriculares (Lélé & Norgaard, 2005: 972).
Pressupõe-se, portanto, que “é impossível a construção de uma única, absoluta e geral teoria da interdisciplinaridade” (Fazenda, 1994: 13), principalmente pelo fato dessa interdisciplinaridade se constituir na prática, ou seja, ser “mais processo do que produto” (Fazenda, 1994: 25). “O significado de interdisciplinaridade evidencia um cruzamento de saberes disciplinares no campo científico e um esforço organizado de coordenação, cooperação e comunicação menos assimétrica” (Teixeira, 2004: 64).
[...]
3. Questões Ambientais e Interdisciplinaridade na Pós-Graduação
[...]
O que se percebe quando a “causa ambiental emerge como foco de interesse no mundo acadêmico” (Bursztyn, 2004: 68) é que o sistema universitário público brasileiro encontra-se em crise, para alguns, uma “crise de confiança epistemológica” (Santos, 1999: 282-283). Até 1985, existiam 54.000 pesquisadores, vinculados a 36.000 projetos. Destes, um total de 580 tratava sobre “meio ambiente e recursos naturais”. As áreas do conhecimento que dominavam tais projetos relacionavam-se principalmente às Engenharias, à Biologia e à Química, que correspondiam a 95,9% do total (Bursztyn, 2004: 68). “Observa-se, dessa forma, a existência de um ‘duplo movimento’: há, simultaneamente, um destaque maior para a questão ambiental como objeto de pesquisa e um maior número de programas interdisciplinares na Pós-Graduação” (Bursztyn, 2004: 70).
O que se percebe quando a “causa ambiental emerge como foco de interesse no mundo acadêmico” (Bursztyn, 2004: 68) é que o sistema universitário público brasileiro encontra-se em crise, para alguns, uma “crise de confiança epistemológica” (Santos, 1999: 282-283). Até 1985, existiam 54.000 pesquisadores, vinculados a 36.000 projetos. Destes, um total de 580 tratava sobre “meio ambiente e recursos naturais”. As áreas do conhecimento que dominavam tais projetos relacionavam-se principalmente às Engenharias, à Biologia e à Química, que correspondiam a 95,9% do total (Bursztyn, 2004: 68). “Observa-se, dessa forma, a existência de um ‘duplo movimento’: há, simultaneamente, um destaque maior para a questão ambiental como objeto de pesquisa e um maior número de programas interdisciplinares na Pós-Graduação” (Bursztyn, 2004: 70).
Em 2008, tal situação sofreu alterações: de um total de 240 cursos de pós-graduação designados na grande área “multidisciplinar”, 190 são programas e cursos da área de conhecimento “interdisciplinar”, sendo que 96 oferecem Mestrados, 9 Doutorados, 48 Mestrados e Doutorados e 73 Mestrados profissionais reconhecidos (CAPES, 2008). Dentre esses, 17 receberam avaliação nota 5, mais do que o dobro de programas interdisciplinares com essa nota na avaliação anterior da CAPES, o que indica um aumento significativo na qualidade (e quantidade) de programas reconhecidos. Apesar disso, ainda não há nenhum curso avaliado com notas 6 ou 7, o que reforça a hipótese de resistência na cultura institucional/disciplinar das universidades e de contínuo aprimoramento dos sistemas de avaliação.
[...]
[...]
4. Produção interdisciplinar de pesquisa científica: o Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq
[...]
A partir do levantamento feito no Diretório de Grupos de Pesquisa (CNPq, 2008), há evidências da concentração de certas áreas do conhecimento em determinadas questões ambientais. À exceção dos grupos de pesquisa da grande área “Linguística, Letras e Artes”, que praticamente não apresentam afinidade com os temas ambientais selecionados para esta pesquisa, nota-se que o tema ambiental mais presente entre os grupos de pesquisa registrados no CNPq é meio ambiente (N=985 em 2006 e N’=1151 em 2008). A base do CNPq pode apresentar um mesmo grupo de pesquisa relacionado a diferentes temas, o que resulta numa dupla contagem.
A partir do levantamento feito no Diretório de Grupos de Pesquisa (CNPq, 2008), há evidências da concentração de certas áreas do conhecimento em determinadas questões ambientais. À exceção dos grupos de pesquisa da grande área “Linguística, Letras e Artes”, que praticamente não apresentam afinidade com os temas ambientais selecionados para esta pesquisa, nota-se que o tema ambiental mais presente entre os grupos de pesquisa registrados no CNPq é meio ambiente (N=985 em 2006 e N’=1151 em 2008). A base do CNPq pode apresentar um mesmo grupo de pesquisa relacionado a diferentes temas, o que resulta numa dupla contagem.
[...]
5. Considerações Finais
[...]
Apesar da prática de pesquisa interdisciplinar no cenário mundial não estar sis-tematizada e das dificuldades relativas à institucionalização de cursos interdisciplinares, observou-se que, no Brasil, todas as áreas do conhecimento possuem grupos de pesquisa que trabalham temas predominantes na questão ambiental, num envolvimento crescente e constante. Todavia, as Ciências Humanas e as Ciências Sociais Aplicadas concentram-se em pesquisas sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável, enquanto as Biológicas, Agrárias e Exatas dedicam-se majoritariamente às temáticas da biodiversidade e dos recursos naturais.
[...]
Apesar da prática de pesquisa interdisciplinar no cenário mundial não estar sis-tematizada e das dificuldades relativas à institucionalização de cursos interdisciplinares, observou-se que, no Brasil, todas as áreas do conhecimento possuem grupos de pesquisa que trabalham temas predominantes na questão ambiental, num envolvimento crescente e constante. Todavia, as Ciências Humanas e as Ciências Sociais Aplicadas concentram-se em pesquisas sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável, enquanto as Biológicas, Agrárias e Exatas dedicam-se majoritariamente às temáticas da biodiversidade e dos recursos naturais.
[...]
6. Referências
[...]
Notas
1. Cientista política, mestre em Ciência Política e doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília.
2. Pode-se citar, como um outro exemplo de esforços coletivos para lidar com fenômenos mundiais complexos, a criação de organismos internacionais, organizações não-governamentais e movimentos sociais. [...]
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-69922010000300008&script =sci_arttext>. Acesso em: 2 set. 2015. [Adaptado].
Assinale a alternativa CORRETA.
O objetivo do Texto 1 é: