Magna Concursos
917955 Ano: 2011
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: ALECE

Uma vez, ouvi na televisão um político americano

dizer: “É preciso limpar as palavras.” Se bem me lembro, ele

falava a respeito de um escândalo que havia ferido

injustamente a reputação de alguém. Era como se assinalasse

que tínhamos que ter mais cuidado na escolha dos termos que

utilizamos, mas chamou-me a atenção que ele se referisse às

palavras como objetos que podem estar mais ou menos limpos.

Tal afirmativa, na boca de um escritor, seria natural.

Mas, dita por um político, soou como algo raro. Claro que,

sendo ele um político americano, há uma explicação para isso.

A cultura daquele país tem um substrato calvinista, e um dos

itens da ética protestante é o confronto entre o limpo e o sujo,

o puro e o impuro.

Anotei a expressão “limpar as palavras”. Gostei da

frase e da intenção.

Assim como a gente manda uma roupa para a

tinturaria, é preciso mandar limpar as palavras. Como se faz

uma faxina na casa, pode-se faxinar o texto. Há até

especialistas nisto: o revisor, o copidesque, o redator. Eles

pegam o texto alheio e começam a cortar aqui e ali as gorduras,

os excessos, as impurezas gramaticais. Também os professores,

os linguistas, os filólogos podem entrar nessa categoria, a

exemplo dos dicionaristas.

Mas como se limpa a palavra? Só uma palavra pode

limpar outra.

Cada um tem lá sua técnica para limpar as palavras.

Lembro uma conhecida que sugeria que, para um jeans bem

limpo, era necessário jogar na máquina de lavar roupas também

um par de tênis. No fundo, era um pouco a imitação

tecnológica do que as lavadeiras sempre fizeram na beira dos

rios, batendo as roupas na pedra. Cada escritor coloca dentro

de sua máquina de escrever um tênis diferente para clarear a

escrita. São matreirices.

O bate-enxuga das palavras. O publicitário também

sabe o que é isso, o que é sacar a frase de efeito, revirar o texto

para que ele tenha a força do slogan, do provérbio, do axioma.

Os homens que tratam das leis também pensam nisso. Ficam ali

burilando os termos pra evitar ambiguidades e subterfúgios. Às

vezes conseguem, às vezes não. A lei deveria ser limpa,

transparente. Às vezes é, às vezes, não.

Limpar as palavras. Mas há palavra pura? Há algum

tempo houve um movimento chamado “poesia pura”, “arte

pura”. Existe alguma coisa pura? Há dúvidas. Hoje, que a

ecologia está na moda, condena-se a poluição. A despoluição,

na verdade, começa pela despoluição no discurso.

Affonso Romano de Sant'Anna. Limpar as palavras. In: Coleção Melhores Crônicas. São Paulo: Global, 2003 (com adaptações).



A respeito dos aspectos linguísticos do texto, julgue os itens que se
seguem.
Em “Tal afirmativa, na boca de um escritor, seria natural. Mas, dita por um político,...” (L.8-9), seriam mantidas a correção gramatical e a ênfase do trecho caso se substituísse o ponto final por dois-pontos e se trocasse a inicial maiúscula de “Mas” pela minúscula correspondente.
 

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